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6.8.14

Como abrir uma cidade para todos

Secretário de Cultura, Juca Ferreira, em entrevista do São Paulo Aberta

Projeto da prefeitura visa integrar ações na cidade de São Paulo. Na área da Cultura, o secretário Juca Ferreira falou a blogueiros das iniciativas em andamento.

Pode parecer maluquice, mas as cidades estão cheias de portas, muitas delas fechadas por sete chaves e muitos reais. Principalmente as grandes, megalópoles como São Paulo, que tem uma área de 1530 km2 e mais de 18 milhões de habitantes que vivem em um território marcado por profundas diferenças econômicas, sociais e geográficas que acabam determinando quem pode ir, fazer o que e como.

Por isso, faz sim muito sentido a iniciativa da prefeitura em lançar o projeto São Paulo Aberta para articular, integrar e fomentar as ações na cidade com participação social. E uma das premissas para a população poder participar, opinar e fiscalizar qualquer iniciativa de um governo é a transparência e o diálogo.

Este foi um dentro os vários temas tratados na entrevista promovida pelo São Paulo Aberta com o Secretário Municipal de Cultura, Juca Ferreira, a blogueiros nesta segunda-feira, 04 de agosto. Participaram os blogs da Cidadania, SpressoSP, Blog do Miro, e o Janela.

Cultura para uns

Ao chegar em São Paulo para assumir a secretaria, Juca Ferreira disse que se espantou com as poucas iniciativas públicas para a Cultura numa cidade do tamanho de São Paulo. “O público é precário para que o privado atue”, disse Ferreira. A frase resume bem como o poder econômico foi moldando uma cidade que, em suas palavras,“foi feita para o trabalho”. Questionado sobre como ele percebia o paulistano, respondeu que “não existe um paulistano médio”, porque o que há aqui é uma grande diversidade de nacionalidades e regionalidades. Mas um traço marcante no comportamento do paulistano o incomodou: “assusta o conservadorismo sistêmico, que dificulta a pessoa de estar próxima da alegria”. Para exemplificar, ele falou das inúmeras cartas e reclamações de cidadãos com queixas sobre festas, atividades culturais de rua, eventos.

A classe média paulistana prefere os espetáculos privativos, em casas de shows hermeticamente fechadas, não é à toa que os espaços públicos, as ruas, foram se esvaziando e deixadas ao abandono. “São Paulo teve a ilusão de que cabia num shopping”, disparou o secretário de Cultura.

Mas essa sensação foi um engano, que ficou mais evidente a partir da inclusão econômica e social promovida pelo país nos últimos anos. Reflexo disso, é que crescem as demandas de políticas, principalmente as voltadas para as camadas sociais mais baixas. “A periferia quer tudo o que nunca teve e que tem direito a ter”, disse. "Há uma demanda reprimida e São Paulo tem muito pouco a oferecer”, avaliou.

Iniciativas se multiplicam para aumentar o acesso e produção

Um vetor importante para as políticas da prefeitura é o da reocupação do espaço público. Daí a importante iniciativa de reabrir cinemas e teatros de rua, iniciativa que pode ser bem ilustrada pela reinauguração do Cine Belas Artes. E um dos entraves para ações como esta é a especulação imobiliária. “Temos atualmente 12 teatros com ameaça de serem expulsos pela especulação imobiliária. A atividade cultural valoriza e revitaliza uma área”, destacou. Mas lamentou que a prefeitura sozinha não tem como enfrentar essa questão e disse que é preciso recuperar a vocação cultural do centro de São Paulo.

Ainda como parte desta estratégia de reocupação do espaço, Juca Ferreira se referiu à Virada Cultural. Quando assumiu a secretaria, foi se informar sobre o projeto e avaliar se deveria ou não dar continuidade. Mas ele percebeu que a avaliação positiva da Virada não era principalmente pelos shows e atividades culturais que ela oferece, mas sim pela possibilidade de convivência entre as pessoas e de recuperação do espaço da cidade como centro de vivência.

Nesse sentido, vieram a descriminalização do Hip Hop e do Funk, que estavam proibidos na cidade, e também a legalizou das manifestações carnavalescas.

Juca Ferreira deu um panorama do que está sendo construído no âmbito da Secretaria de Cultura para que se possa enfrentar este déficit de políticas culturais para a cidade. Referiu-se a equipamentos culturais que já são consagrados e que referências, como o Centro Cultural São Paulo – local em que ocorreu a entrevista – e o teatro municipal.

O primeiro, na avaliação de Juca talvez seja o equipamento cultural mais bem sucedido de São Paulo. “Quando eu cheguei já havia uma boa programação e ocupação deste espaço. A sociedade se sente proprietária deste espaço”, e por isso, ele manteve a equipe e a vocação do Centro Cultural.

Com relação ao Teatro Municipal, houve uma ampliação das apresentações próprias e se expandiu a estrutura de formação para outros pontos da cidade, com o objetivo de facilitar o acesso às camadas mais populares para a formação artística.

Na periferia há programas para ampliar o acesso à recursos e estrutura para a produção cultural local, um deles é o Cidadania Cultural. Também informou que está em discussão o retorno das Casas de Cultura para a gestão da secretaria, e que sua intenção é dar maior dinamismo à ocupação destes equipamentos de forma criativa com o que já é produzido pela cidade.

Outra iniciativa importante da Secretaria de Cultura, lançada algumas horas depois da entrevista, é o projeto Mapas Culturais/SP Cultura, uma plataforma colaborativa e georeferenciada para reunir informações sobre projetos culturais na cidade.

Com tanto a mostrar, então porque a administração do prefeito Fernando Haddad apresenta índices baixos de avaliação? A esta pergunta, Juca Ferreira referiu-se ao papel da mídia, que teme que o prefeito se firme como uma liderança na cidade e tenha projeção nacional, e também faz uma avaliação crítica da própria postura da gestão. “Acho que a gente errou na comunicação, a gente comunica muito pouco o que faz. É preciso reconstituir o diálogo com a população. É ilusão pensar que é suficiente sermos bons na gestão, nós temos que ter a capacidade de dialogar mais com a cidade. A transparência fortalece as políticas públicas que devem ser construídas com a participação social”.

Assista à íntegra da entrevista


20.8.12

Basta, o desabafo aristocrático de Pondé


Em sua coluna desta segunda-feira, 20, na Ilustrada, o sr. Luiz Felipe Pondé afirma não acreditar em motivações ideológicas para nada. Estranho, pois o artigo Basta é uma ode à ideologia burguesa em sua roupagem mais aristocrática.

Deselegante, como todo aristocrata, destila sua arrogância intelectual em nome dos interesses de sua classe. Sem preocupação alguma em fundamentar com argumentos suas opiniões, usa ataques baixos para rotular conquistas que a sociedade demorou séculos para alcançar, como o direito das mulheres a serem mais do que reprodutoras e cuidadoras e ocuparem um espaço no mercado de trabalho.

Do alto de sua pose intelectual e entre baforadas do seu cachimbo, faz um ataque desqualificado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa, organismo que tem procurado conduzir sua atuação pautado pelos interesses da população e em consonância com práticas e estudos internacionais que mostram, por exemplo, como orientar o consumo de alimentos e medicamentos visando o bem-estar e a saúde da população.

Critica a iniciativa da Anvisa em exigir receita médica – o que já deveria ser feito – para comprar medicamentos com tarja vermelha. Mas, espere um pouco, o que vem escrito dentro desta tarja, alguém já parou para ler? VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA. O que a Anvisa pretende é apenas fazer valer uma regra que já existe e que visa a proteção do usuário do medicamento.

Pondé classifica a medida como “uma das pragas contemporâneas”, chama os técnicos da Anvisa de tecnocratas e diz que eles “se masturbam à noite sonhando como vão controlar a vida dos outros em nome da saúde pública”.

As afirmações do jornalista deixam claro que ele precisa ajustar o grau dos óculos para enxergar a realidade. Imagino que para um dito intelectual não faltem informações sobre os riscos da automedicação, esta sim uma das pragas contemporâneas alimentadas pela indústria farmacêutica e por boa parte dos estabelecimentos que vivem da sua venda. Dados do Sistema Nacional de Informações Toxicológicas – Sintox, de 2009, mostram que 26,47% das intoxicações registradas no país foram caudas por medicamentos. Não há dados sobre a distribuição destas ocorrências por renda, mas não seria surpresa se a população mais atingida por esta “praga capitalista” fosse a de mais baixa renda.

Então, o que o Sr. Pondé chama de controlar a vida dos outros, eu chamo de preservar a saúde. E viva a possibilidade do contraditório. Para sermos mais democráticos, seria ótimo se minha humilde opinião pudesse também ser publicada em um jornal de grande circulação como a Folha de S.Paulo, possibilitando, assim, que seus leitores tivessem dois pontos de vistas diversos a partir dos quais pudessem construir suas próprias opiniões.

Mas não é só sobre medicamento que o Sr. Pondé emitiu sua douta opinião. Ele atacou também as cotas nas universidades e a campanha pela proibição de publicidade para crianças.

Sobre as cotas, sem dúvida que é contra, mas para os pobres ele as admite em “alguma pequena porcentagem, vá lá”, como alguém que engole um remédio amargo (tarja vermelha!).

Mas o machismo aristocrata que corre no sangue azul de Pondé ficou aflorado mesmo quando ele se contrapôs à proibição da publicidade infantil. No estilo Tradição, Família e Propriedade ele condena a mãe por todos os males que possam atingir as crianças.

Afinal, afirma, “todo mundo sabe que, quanto menos a mãe está em casa e quanto mais ela é só e menos tempo tem para a criança, mais a criança come porcaria”. E seguindo este raciocínio brilhante, ele afirma que a escola pública precisa existir “para preencher o vazio de famílias que não cumprem sua função”.

Para a aristocracia masculina que Pondé representa, a pior praga contemporânea é a existência de uma sociedade de direitos, aonde a mulher tem conquistado posições antes apenas reservada aos homens. Aonde a mulher pode destacar-se como profissional e cidadã, ocupando espaços de poder em grandes empresas, no Estado e dentro de casa.

Tal avanço democrático implica, necessariamente, numa reformulação dos papéis de cada um dentro da família. E isto impacta, principalmente, no comportamento masculino. Tarefas cotidianas da casa e do cuidado com os filhos passam a ser dividas e isso para o Sr. Luiz Felipe Pondé é o sinal dos tempos. Imagine o homem limpando um banheiro, lavando louça, trocando uma fralda.

“Os mesmos que gozam pensando em mandar na vida dos outros são os que mentem quando não dizem que as crianças comem porcaria porque ficam largadas em casa sem mãe para tomar conta delas”, constata Pondé para mais a frente concluir: “Os mesmos que cospem na cara da família como instituição, estimulam as mulheres a pensarem só em si mesmas e acusam a família de ser autoritária são os que pedem a proibição da publicidade infantil”.

A sociedade é um espaço de conflitos entre o velho e o novo. Entre os que lutam para defender com unhas e dentes o status quo e os que querem transformações. O Sr. Pondé representa o primeiro grupo, que vê seu poder sendo reduzido quando o país elege um operário e uma mulher para presidir a República, que sofre de urticária quando medidas em prol do desenvolvimento nacional e da inclusão social são adotadas para reduzir as desigualdades (afinal a sua classe vive e se alimenta delas).

Felizmente, o sr. Pondé sabe disso e usa todas as suas armas para evitar que seu pensamento seja superado. O que talvez ele não saiba, ou não tenha percebido, é que a sociedade já o está superando.



27.11.11

A classificação indicativa da novela Fina Estampa

As telenovelas são uma mania nacional. Gênero audiovisual que tem seguidores em todas as camadas sociais e em todas as gerações. E não só no Brasil. Nossas telenovelas se transformaram num dos principais produtos culturais de exportação brasileira, sendo transmitidas e retransmitidas em vários países de todo o mundo. A tal ponto, que quando um brasileiro é identificado em outro país, é muito comum que seja alvejado de perguntas sobre a novela da vez.

Por décadas ocupa o chamado horário nobre da TV brasileira, não só na TV Globo, emissora de maior alcance e audiência, mas em outras que tatearam a possibilidade de conquistar mais público com o gênero. Foi assim com a extinta Manchete, ou o SBT, Record, Bandeirantes.

A influência cultural da telenovela é avassaladora. Ela dita comportamentos, moda, constrói através de seus personagens um ideal de consumo e de sucesso pessoal como nenhum outro produto cultural é capaz de fazer.

De alguns anos para cá, passou a abordar de forma mais direta temas sociais, como a questão da violência contra a mulher e o uso de drogas, para citar os dois assuntos preferidos dos autores de novela.
As tramas exploram cada vez mais os antagonismos entre mocinho (a) e bandido (o). O herói e o vilão da história. E a questão é que o vilão, a cada dia, é mais amado pelo público. As coisas que eles dizem e fazem têm tido certa aceitação da população.

Os impropérios ditos pela vilã da vez, a Tereza Cristina da novela Fina Estampa, não estão causando repúdio, mas estão contribuindo para reproduzir preconceitos e galvanizar um sentimento reacionário que está pulsando na sociedade.

Vistos por uma criança ou adolescente, as ações da Tereza Cristina em questão, mas de qualquer outro personagem em qualquer outra emissora, funcionam mais como exemplos a serem seguidos do que a serem condenados.

Novela não é coisa para criança
 Claro, o remédio para evitar isso está na ponta da língua dos que acham que a TV pode tudo e que a culpa é dos pais, qual seja: Novela não é coisa de criança, os pais precisam cuidar do que seus filhos assistem.
Lembro vivamente desta frase repetidas tantas vezes por minha avó quando eu era pequena. Mas, o que fazer? O televisor – que se transformou no centro de convivência e relações familiares – estava sempre ligado nas novelas. Então, minha memória infantil gravou profundamente cenas como a explosão da Dona Redonda, ou o formigueiro que saia do nariz do Zico Rosado, personagens folclóricos de Saramandaia. Todas estas imagens um tanto inadequadas para uma criança de 5 anos. Eu ficava com medo que minha bisavó – que era gorda – explodisse dentro de casa.

Classificação indicativa nelas
Os que acham que não é bem assim – ou seja, que tanto as emissoras quanto o Estado têm responsabilidades pelo que veiculam – defendem que é preciso classificar o conteúdo por faixa etária e horário de veiculação.

Não é preciso ser expert para reconhecer que a novela Fina Estampa não está adequada para a faixa etária em que está classificada. O Ministério da Justiça está atento e já notificou a emissora sobre a questão.
Este é um tema de interesse de toda a sociedade e precisaria ser discutido amplamente em respeito ao direito do público.

21.11.11

O homem que encarava cabras, uma anedota sobre a escalada bélica norte-americana


Um exército convertido a cavalheiros Jedi cujas armas são o amor e a força da mente para provocar o bem nas pessoas. Este exército nasce como uma unidade clandestina dentro de uma divisão das Forças Armadas dos Estados Unidos – o maior aparato de guerra do mundo. Generais com flores em punho e coronéis hippies se lançam na empreitada de construir o Exército da Nova Terra, formado por Jedis que vão combater o lado escuro da força.

O delírio não é meu, mas do escritor Jon Ronson (livro), que teve a ajuda de Peter Straughan para transformar essa história inverossímel em filme, estrelado por George Clooney, Ewan McGregor, Jeffrey Bridges e Kevin Spacey.

Algumas situações do livro são reais, como o laboratório de cabras que eram usadas para treinamento cirúrgico, por mais bizarro que isso possa parecer. Mas as cabras são mais que cobaias, elas são a metáfora dos iraquianos invadidos pelos Estados Unidos.

Quem narra a história é um jornalista fracassado e covarde que resolve ir para o front de batalha no Iraque depois de sua esposa trocá-lo pelo editor do jornal. Lá, Bob Wilton (MacGregor) conhece Lyn Cassady (Clooney), um dos Jedi do Exército do Novo Mundo, que está numa missão tão secreta que nem mesmo ele sabe qual é. Ambos partem para o deserto iraquiano, aonde vivem situações improváveis.

Em todo saco há maças podres
O filme ridiculariza o Exército e critica a postura dos EUA de se autoproclamarem os guardiões do mundo, o governo de todos os governos, inquestionáveis por estarem acima do bem e do mal. A invasão do Iraque é utilizada como pano de fundo dessa crítica.
Mas eles também buscam mostrar que há, nos EUA, os que discordem da postura de seus governantes, os Jedi.

Mídia a serviço do poder
Depois de presenciar os poderes jedi e os abusos cometidos pelos que usaram seus poderes para fazer o mal, Bob é incumbido da tarefa de contar ao mundo toda aquela história. Falar das prisões arbitrárias, da exploração econômica contra um país que estava apenas buscando ser livre, das atrocidades cometidas pelos norte-americanos.

Bob retorna e cumpre sua missão. Envia seu “furo de reportagem” para os principais veículos de televisão, rádio, jornais e revistas, a espera de ver toda a verdade revelada. Mas, toda sua história se resumiu a uma informação jocosa de que os soldados norte-americanos colocavam a música do ursinho Barney para os presos ouvirem.

O humor de O homem que encarava cabras não é nem um pouco convencional, mas é justamente isso que torna o filme tão interessante.

20.11.11

Toda nudez será castigada


Exaltar o belo representado pelo corpo nu é algo que acompanha a trajetória da humanidade. Esculturas, quadros, fotografias de nu feminino e masculino estão presentes nas artes e na vida.

A nudez não é um valor em si. Ela tem que ser analisada dentro de cada contexto histórico. Atualmente, está geralmente impregnada pelos valores culturais do capitalismo, ou seja, transformou-se em mercadoria, como quase tudo e todos acabaram se resumindo a isso. Afinal, não somos mais pessoas, somos consumidores.

Parte das críticas feitas à exploração sexual da mulher pela sociedade, que usa o corpo feminino para vender produtos ou a própria mulher em campanhas publicitárias, revistas etc, não critica a nudez em si, mas o que ela representa nesse contexto histórico.

Mas a manifestação da egípcia Aliaa Magda Elmahdy não tem relação alguma com a mercantilização da nudez. Ao contrário, Aliaa usou o próprio corpo para exprimir de forma contundente seu protesto contra a ausência de liberdade de expressão no Egito e em defesa do direito das mulheres e da igualdade de gênero.

Em seu blog, Aliaa não postou apenas fotos suas, mas também desenhos e fotos de outros nus. E escreveu:

Levem a julgamento os modelos que pousaram nus para escolas de arte até o início dos anos 70, escondam os livros de arte e destruam as estátuas nuas da antiguidade, depois, tirem suas roupas, fiquem diante de um espelho e queimem seus corpos que vocês desprezam, e livrem-se para sempre dos seus preconceitos sexuais antes de direcionar sua humilhação e chauvinismo e ousar tentar negar a minha liberdade de expressão

No Brasil, ou em outros países de cultura ocidental, a atitude de Aliaa não teria efeito algum. Para nós, pode até parecer ridícula a manifestação da blogueira. Mas no Egito e em todo o mundo Árabe, aonde mulheres só aparecem em público cobertas, a iniciativa de Aliaa teve um efeito devastador, que desencadeou uma onda de indignação no país.

A comunidade islâmica partiu para o ataque contra Aliaa, uma jovem de 20 anos que acabou polarizando o debate político na região na última semana. Conservadores usam o protesto de Aliaa para atacar os liberais, enquanto estes tentam se desvencilhar de qualquer ligação com a moça, para evitar derrotas eleitorais.

Apesar dos ataques sofridos, Aliaa também despertou a solidariedade de mulheres que são caladas e encarceradas pelo conservadorismo islâmico. A manifestação de apoio, como não poderia deixar de ser, também foi reafirmando a nudez.

Tabus são sempre perigosos de serem quebrados, por isso a nudez de Aliaa está sendo castigada.

5.11.10

Querem banir o Monteiro Lobato, Que vergonha!

Para não dar margens a interpretações equivocadas do meu ponto de vista, quero em primeiro lugar afirmar o meu respeito à luta contra qualquer forma de discriminação - seja racial, de gênero, social, cultural. O fim do preconceito está intimamente ligado com o amadurecimento da sociedade.

Dito isto, acho que alguns setores e atores que militam em prol desta causa têm perdido um tanto da perspectiva do que significa de fato essa luta e adotado posturas intolerantes e intrasigentes, que resultam no cerceamento da liberdade artística e cultural.

Exemplo disso é o recente caso envolvento o veto que o Conselho Nacional de Educação impôs à aquisição por parte da administração federal do livro de Monteiro Lobato, "Caçadas de Pedrinho". O argumento do CNE, que deliberou sobre o assunto de forma unânime, é que o livro de Lobato possui trechos racistas. Para sustentar esta ideia, extrai do texto - e do contexto histórico - alguns trechos.

Uma ativista do movimento negro, ouvida pela reportagem da Agência Brasil, endossa a decisão do CNE.  Marlene Lucas disse ser a favor da retirada de "Caçadas de Pedrinho" das escolas. “Tudo aquilo que agride a identidade das pessoas deve ser banido, seja de qual período for, independentemente da importância histórica e artística”, defende.

Sinceramente, este tipo de atitute é tão tresloucada que beira ao ridículo. A patrulha ideológica e do politicamente correto levada a estes níveis pode ter consequências desastrosas. Então, daqui a pouco estaremos como os nazistas, queimando livros ou rasgando obras de arte que agridem a identidade das pessoas.

Uma visão crítica sobre o tema me foi enviado por uma militante do movimento negro,que também discorda da decisão do CNE. É um pouco extensa, mas vale a leitura.

Assunto: Leitura Crítica - MONTEIRO LOBATO RACISTA

Quem paga a música escolhe a dança?

Marisa Lajolo

"Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso. Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.

Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida: felinos ferozes invadem o sítio e – de novo - é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças (particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de Dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida, quer proibir de integrar acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares. O CNE acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são expressões pelas quais Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis. Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu (D. Casmurro, Machado de Assis, 1900) traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho. Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar...!

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito. Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação- manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta face ao que lêem.

Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.

Como os antigos diziam que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que quem paga o livro escolha a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos. Trata-se de uma idéia pobre, precária e incorreta que além de considerar as crianças como tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas
– ao contrário- pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva...

Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis coincide com o lamento geral – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação — pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira. Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir, a autoridade veta. E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções, estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores...

No caso deste veto a "Caçadas de Pedrinho", Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas; (...) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida transforma livros em produtos de botica, que devem circular acompanhados de bula com instruções de uso.

O que a nota exigida deve explicar? O que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura? A quem deve a editora encomendar a nota explicativa ? Qual seria o conteúdo da nota solicitad? A nota deve fazer uma auto-crítica (autoral, editorial?), assumindo que o livro contém estereótipos? A nota deve informar ao leitor que "Caçadas de Pedrinho" é um livro racista? Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC?

As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro. Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir - será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada. E este modelito da mordaça de agora talvez seja mais pernicioso do que a ostensiva queima de livros em praça pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa Pátria amada idolatrada salve salve. E salve-se quem puder... pois desta vez a censura não quer determinar apenas o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como se deve ler o que se lê!

Marisa Lajolo - Profª Titular (aposentada) da UNICAMP. Profª da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisadora Senior do CNPq. Organizadora, com João Luís Ceccantini do livro de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil), obra que recebeu o Prêmio Jabuti 2010 como melhor livro de não ficção.

18.6.10

A última página do Caderno de Saramago

Hoje, as palavras estão embaralhadas. As letras, desorientadas, não conseguem se reunir para dar sentido a alguma coisa. Silêncio e vazio. O papel está em branco. A caneta, viúva. A lucidez foi borrada. Neste dia, o mundo diz adeus a José Saramago.

Saramago não foi apenas um escritor, um dos melhores da contemporaneidade, foi um pensador, um homem de reflexões e inquieto, que não se contentava em apenas ver o mundo, mas queria transformá-lo.

Quando a sociedade condena o idoso à poltrona e ao antigo, Saramago não se intimidou diante das novas tecnologias e ocupou a internet fazendo dela mais uma trincheira na luta de ideias. Criou os Cadernos de Saramago, onde colocava seus pensamentos. O último foi postado em 13 de fevereiro. Desde então, estamos acompanhando os Outros Cadernos de Saramago, onde trechos de suas obras e textos publicados na imprensa estão sendo reproduzidos.

O deste dia de perda, trás o que é a síntese de uma vida dedicada às ideais:

Pensar, Pensar:
“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008.

4.3.10

Silêncio, o sambista está dormindo

A morte de Walter Alfaiate deixou o samba triste. Neste sábado, a voz elegante “sumiu na brisa”, mas deixou um legado de grandes sambas, inesquecíveis apresentações e a alegria da roda de amigos, como esta.

2.3.10

O mundo, a arte, e Jabor "em crise"

Reproduzo o artigo do documentarista Vandré Fernandes sobre o armargurado comentarista global Arnaldo Jabor.

O mundo, a arte e Jabor “em crise”

Parafraseando o título do livro “O mundo, o homem e a arte em crise” do intelectual de esquerda Mário Pedrosa, trotskista e fundador do PT, acho oportuno levantar considerações sobre as últimas frases e comentários do jornalista e cineasta Arnaldo Jabor, que vem soltando o verbo contra a esquerda e o governo Lula, utilizando a mídia para defecar palavras retrógradas e se posar de Robin Hood dos ricos.

É sabido por todos que Jabor iniciou sua peregrinação no CPC da UNE, depois passou a fazer parte da escola Cinema Novo e realizou o bom filme-documental Opinião Pública. Sempre contestador, ele fez excelentes filmes como Pidorama, Toda nudez será castigada, Eu sei que vou te amar, entre outros. Aos poucos, Arnaldo Jabor foi migrando sua trajetória, inicialmente de esquerda – a qual nega, dizendo que eram apenas coisas um jovem romântico – e vai se convertendo à esquerda, passando a endeusar os setores conservadores do país.

Recentemente, Jabor vem aproveitando seu espaço na TV Globo, na Folha de São de Paulo, na rádio CBN e em outros meios de comunicação para dizer do “medo” de eleger Dilma para a Presidência da República. O que estaria por trás deste medo? E por que Lula fez um governo consequente e Dilma não fará?

Na verdade, o medo de Jabor é o mesmo medo de Regina Duarte nas eleições de 2002. Medo de ver um país com mais distribuição de renda, mais inclusão social, com mais autoestima de ser brasileiro. Jabor acha que com Dilma na presidência o monopólio da mídia será quebrado, e ele teria dificuldade arrotar suas agruras na mídia. Talvez esteja com medo de que utilizem os mesmos meios para desqualificá-lo por suas condutas esquizofrênicas, por ser porta-voz de uma elite que vê ruir seus sonhos do american way of life.

Jabor esteve presente no 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, organizado em um luxuoso hotel de São Paulo pelo Instituto Millenium, que reuniu algumas dezenas de pessoas para discutir o tema pelo valor de R$ 500,00. Jabor discursou como se discursava na época da guerra fria, como se a ameaça comunista estivesse à beira de deflagar no país, ou seja, ele parou num tempo distante. Atacou os comunistas, a Dilma e convidou a todos para impedir que a pré-candidata petista chegue à presidência.

Talvez Jabor não perceba os avanços obtidos no país na era Lula, e faz o jogo de depositar as conquistas alcançadas no último período ao governo de FHC, o que é uma dissimulação para não creditar os avanços do governo de Lula e de sua base aliada que conta, inclusive, com comunistas no senado e na Câmara Federal.

O mundo mudou e avança para o futuro, o Brasil cresce e pode ser em breve a quinta economia do mundo. Cada dia mais pessoas no país deixam a linha da pobreza e ingressam na classe média. Jabor pode ter medo disso tudo. Mas o povo não. A última pesquisa eleitoral indica que o caminho a ser seguido é o mesmo iniciado em 2002.

Portanto, Jabor fala na TV, fala no rádio, escreve no jornal, mas não escuta o povo. E se de um lado temos um grande cineasta, do outro temos apenas um homem, um homem em crise.

24.2.10

Se acabou o Cordel

O anúncio do fim do Cordel do Fogo Encantado, nesta quara-feira, caiu como uma tromba d’água. A banda pernambucana, que está na estrada há 14 anos (primeiro como grupo teatral e em seguida como banda musical) construiu um dos trabalhos musicais mais originais surgidos no Brasil neste período.

A música do Cordel nos leva ao sertão, à seca. Nos arranjos musicais a poeira do sertão penetra não só nos ouvidos, mas na pele. Parece que nos transportamos. Um orgulho do Brasil e do povo nos invade ao ouvirmos um repertório que bebe na música regional, mas que agrega o que de mais moderno pode-se pensar.

Lirinha, ao anunciar sua saída do grupo, diz em nota: “É com muita dificuldade que redijo essa informação, devido ao imenso amor que eu sinto pelo público e pelos meus companheiros/guerreiros do projeto. Revelo, por respeito aos que me acompanham, a minha vital necessidade de trilhar novos caminhos. Ajudei a desenvolver um dos espetáculos mais originais da cultura pop do país e é com esse sentimento de orgulho que sigo em frente. Com a certeza de que o fogo da nossa poesia e da nossa música nunca se apagará e que nossa força é infinita!”.

Já diria o poeta “que seja eterno enquanto dure”. E foi. A necessidade de trilhar novos caminhos artísticos impõe inaugurações e encerramentos. E assim é.



17.2.10

Entre cinzas e foliões

Dizem que no Brasil, o ano só começa depois do Carnaval. A folia serve como uma espécie de lavagem do corpo e da alma, uma catarse coletiva para renovar os ânimos.

Ano após ano o noticiário mostra que o número de foliões cresce exponencialmente e se diversifica. As pessoas vão se aglomerando numa muvuca musical que chega a ser assustadora. Tem carnaval para todos os gostos: trio elétrico na Bahia, frevo e maracatu em Pernambuco, cordões e blocos espalhados pelo interior e em capitais importantes, o desfile de escolas de samba – desde as grandiosas do Rio e São Paulo – até as agremiações menores de cidades pequenas, tem o carnaboi no Amazonas, quem sabe até o carnavanerão no Sul. É música, virou carnaval.

E merchandising, muito merchandising para vender de tudo. O carnaval é um dos negócios mais rentáveis do país. Atrai o turismo internacional, movimenta o turismo nacional, e alavanca a venda de coisas e pessoas. Afinal, no capitalismo tudo e todos não passam de produtos a serem comercializados.

É cada vez mais comum trazer artistas para endossar marcas. Em 2010 o desfile de celebridades internacionais contou com Madonna, Paris Hilton, Gerard Butler entre outros que fizeram a festa na Sapucaí e no Copa. E entre as atrações nacionais a presença é obrigatória. Gostando ou não de carnaval tem que marcar presença.

Em ano eleitoral, como este, também é obrigatório aos candidatos fazerem a maratona da folia. Desde quando é pré-requisito para ser candidato a governador, prefeito, ou presidente ter que gostar de carnaval? Os jornais usaram e abusaram da Dilma claramente exausta no camarote do governador do Rio na primeira noite de desfiles. E ainda anotaram, com uma conotação negativa, que ela não aguentou até o fim e saiu, cedo, à francesa. Qual o problema?

Não me levem a mal, não sou dessas pessoas que acha o carnaval uma festa que reúne pecadores. Pelo contrário, gosto de cair na dança, vou à quadra de escola de samba, a blocos, já visitei o Galo da Madrugada e os quatro cantos de Olinda. Já pulei carnaval de marchinha na praça do coreto. Mas me incomoda demasiadamente essa ditadura do carnaval, essa tentativa de impor um comportamento – não pular carnaval é quase um desvio de personalidade, as pessoas te olham com estranhamento.

Dizem, também, que a quarta-feira de cinzas tem um quê de melancolia.... Vai ver por isso esteja tão crítica. Talvez esteja saudosa de outros carnavais, onde a folia e a alegria eram naturais, espontâneas e não essa coisa fabricada que vemos hoje. Pode ser.

30.11.09

O barbeiro de Sevilha

O que pode haver em comum entre uma das mais famosas óperas já encenadas, a popular macarena e um hare krishna? Para descobrir sugiro que vá ao Theatro São Pedro e assista à montagem da ópera de Gioachino Rossini, que tem a direção cênica de Willian Pereira e a direção musical e regência do maestro Emiliano Patarra. Os músicos são da Orquestra Jovem Municipal de Guarulhos.

Em cartaz até 03 de dezembro, a ópera bufa de dois atos conta a história das artimanhas do barbeiro Fígaro para ajudar o Conde de Almaviva a conquistar Rosina, moça que vive sob a tutela de Don Bártolo. Uma sucessão de situações hilárias que mostra a força da comédia romanesca.

Na montagem de Willian Pereira, o público vai se surpreender ao ver os personagens do século XVIII aparecerem em cena fazendo referências a situações contemporâneas. Uma ópera vibrante, com um dos repertórios mais famosos da música erudita.

Com um elenco de vozes marcantes, o destaque fica para a interpretação cômica dos personagens. O tenor Flávio Leite (Conde de Almaviva) está espetacular. A mezzo-soprano Luciana Bueno (Rosina) arranca aplausos do público e o barítono Rodrigo Esteves interpreta Fígaro com espiritualidade.

Ópera para deficientes visuais
Mas os aplausos não são apenas para os artistas. Os produtores e a direção do teatro também merecem toda a reverência. É que a ópera tem recursos de audiodescrição para portadores de deficiência visual, além de acessibilidade para outros tipos de deficiência.

Na sessão que assisti – na última sexta-feira – havia um grande público com deficiência visual. Pelo menos dois deles estavam no teatro com seus cães guias, que puderam permanecer no teatro durante todo o espetáculo, com lugar garantido na platéia. Foi muito especial ver que no Brasil, com preços acessíveis, pessoas com deficiência têm a possibilidade de participar de uma espetáculo musical sem constrangimentos.

Serviço
Il Barbiere di Siviglia
Theatro São Pedro – Rua Barra Funda, 171
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
De terça-feira a quinta-feira, às 20h30
Venda Antecipada: www.ingressorapido.com.br

19.10.09

Uma geração curtida à fumaça

Em tempos de resgate de práticas saudáveis, gerações inteiras estão tendo que rever hábitos que foram cultivados a partir de uma excessiva propaganda consumista e que moldou comportamentos e personalidades.

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29.9.09

Reminiscências

“Ela era adorável”, diz Edward Carr ao falar sobre Jojo, a mulher da sua vida, a luz dos seus olhos, ou qualquer outro clichê que se queira atribuir, alerta o próprio. Carr é Antônio Fagundes – ou seria o inverso? – um viúvo que, durante o velório de sua esposa, Maria Josefina, inicia uma digressão sobre os fragmentos de sua vida amorosa.

No espetáculo solo Restos, Antonio Fagundes retorna ao centro do palco de forma intensa e passional. O texto do polêmico roteirista norte-americano Neil LaBute (Wrecks, de 2005) convida o público a percorrer, “com efeito”, as venturas e desventuras de alguém que, ao lado da morte, está em busca da vida.

Apaixonante
Antônio Fagundes é outro. Não é o Rei do Gado, nem Juvenal Antena. A TV traz longevidade, mas apequena o ator. Sozinho, ele ocupa o palco com grandeza. A intensidade com a qual Fagundes dá vida a Carr é avassaladora

1º Ato – Vício
Toca a sirene. Apagam-se as luzes. Silêncio. Ouve-se discretamente o abrir da cortina, mais nada. De repente, o esqueiro; e um ponto vermelho surge no centro do palco. Lá está Carr, ereto, de luto, óculos escuros e a luz que incide sobre ele revela a fumaça do cigarro.

Não, o cigarro que matou Mary Jô de câncer não é o centro das atenções, apesar de ter despertado a polêmica em razão da queda de braço entre Fagundes e o governador tucano José Serra, em razão da Lei Antifumo. E, ao ver a peça, percebe-se que o coadjuvante cigarro é personagem indispensável para compor a narrativa e a cena.

2º Ato – Restos
Com o cigarro na mão, Carr vai juntando os fragmentos de sua vida com Jojo. Restos de memórias, de rancor e sexo. E ao colar pedaço por pedaço, numa confissão dolorida ele revela segredos e quebra tabus, num jogo de cena surpreendente e “com efeito”.

Restos
Teatro Faap – rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo
Informações pelo tel. 11/3662-7233
De 5a e 6a, às 21h, sáb., às 20h, e dom., às 18h
R$ 100

10.9.09

Cinema na Periferia

Já falei, neste blog, sobre a questão da formação de novos públicos culturais, quando abordei a proposta do governo federal da criação do Vale Cultura.

Certamente, entre os gargalos que fizeram com que nossos públicos minguassem ao longo das décadas estão o preço do ingresso e o acesso. As cidades, em particular as capitais, viveram nas últimas duas décadas o boom do Shopping Center, que foram pipocando nas regiões centrais e mais nobres.

O shopping se transformou no novo ‘habitat urbano’. Para ele migraram as lojas, supermercados, lanchonetes, restaurantes, cinemas, teatros e as pessoas. Mas não quaisquer pessoas. O espaço reservado dos shoppings nasceu com a seleção dos públicos. Seja direta ou indiretamente.

Há, por exemplo, em Curitiba, um shopping que proibiu a entrada dos moradores de baixa renda que vivem na comunidade mais próxima. Em São Paulo, o novo Shopping Cidade Jardim nasceu vocacionado para a classe A.

Cinema na periferia
Esse distanciamento das pessoas do cinema, a difusão da TV a cabo, o pipocar das locadoras e o crescimento de DVD´s com os lançamentos do cinema criaram o público da telinha, ou seja, assistir aos filmes em casa, com a família, pagando muito pouco por isso.

Para mudar esse comportamento não basta, apenas, abrir salas e baixar o preço – ainda que este seja, claro, o ponto de partida. É preciso, além de pensar preço e acesso (com facilidade de transporte), ter uma política de formação de públicos que estimule a pessoa a voltar ao cinema.

Criar sessões voltadas para a família, com preços diferenciados, incluir o cinema no circuito das atividades extracurriculares da escola, promover debates vinculados à temática do filme exibido, ou seja, agregar valores adicionais à exibição. A tecnologia 3D, por exemplo, pode ser um atrativo que seduza as pessoas a irem ao cinema.

Iniciativas como a noticiada na Ilustrada desta quinta, de abertura de salas em supermercados da periferia carioca e paulista, deve ser comemorada, mas precisa ser acompanhada de uma proposta de inclusão.

30.7.09

TV Brasil, um projeto em disputa

Ao tomar a decisão de criar a Empresa Brasil de Comunicação, o governo federal preencheu uma lacuna histórica no sistema de radiodifusão do país e cumpriu uma determinação constitucional de que esse sistema deveria observar a complementaridade entre o público, o estatal e o privado – que desde 1988 era desrespeitada.

A construção de um sistema público – praticamente do zero – encerra desafios em todas as suas fases: desde a definição comum do conceito de rede pública, passando por questões relacionadas à forma de gestão, programação, composição de recursos financeiros e humanos, construção de infraestrutura, diálogo com a sociedade para definição de como se dará a participação desta em todas as etapas, conquista de audiência, isso para citar apenas alguns desafios.

Esse processo ocorre num determinado contexto político e econômico. No aspecto político é preciso considerar que há uma disputa de dois projetos para o Brasil que cinde a sociedade, ainda que discretamente, em duas. Há um setor que projeta um rumo de desenvolvimento e soberania para o país, com ampliação da democracia, dos direitos sociais e humanos, observando uma política internacional independente e de integração com a América Latina, que pressupõe o fortalecimento do Estado como ente indutor de políticas. Do outro lado, há um setor que prega a desregulamentação geral, com redução de direitos sociais, abertura para a ação autorreguladora do mercado em todas as esferas da sociedade, privilegia as relações comerciais de dependência com os países ricos, rejeita as políticas de autodeterminação e soberania dos países vizinhos e é avesso à ampliação da participação da sociedade na definição de políticas para o país.

Desvio de rota
Essa divisão, claro, apresenta nuances e não está cristalizada em todos os estratos da sociedade. Em muitos casos, essas posições se misturam e adquirem uma face híbrida. E isso está presente dentro e fora do governo. Ou seja, a falta de clareza e de convicções em setores que ocupam posição estratégica no governo contribui para frear iniciativas e trazer confusão na hora da aplicação de políticas.

Esse problema se reflete na construção da EBC. Apesar de ter sido constituída a partir de um debate amplo que reuniu sociedade e governo, que avançou bastante na elaboração e delineamento do perfil da nova rede, na hora de implementar a decisão o governo deixou de lado vários aspectos que haviam sido consensuados, como a forma de gestão e a composição do Conselho Curador, para ficar apenas nestes dois exemplos.

Desafios estruturais
No aspecto econômico, os desafios são imensos, já que a criação da EBC se dá numa quadra de crise econômica internacional, com impactos em vários setores da economia, com redução do crédito, grande flutuação de câmbio e incertezas internacionais. Isso tem reflexo direto na criação da EBC. A empresa nasceu da fusão da TV Educativa do Rio, da TVE do Maranhão e da Radiobras, que estavam com seus sistemas de transmissão e produção totalmente sucateados. A adesão de emissoras estaduais à EBC para a constituição da rede pública é um processo ainda lento e que não soluciona os problemas de infraestrutura, uma vez que também as emissoras estaduais se encontram em situação precária. Recompor os recursos humanos e materiais é um desafio que está longe de ser solucionado.

Para não falar dos problemas relacionados à divisão do espectro radioelétrico e a farra das concessões de rádio e TV, que restringem a transmissão da TV Brasil há poucas regiões geográficas e em canais indecentes da banda. Quem sintoniza em São Paulo, por exemplo, o canal aberto 69? As pessoas nem sabem da existência de algo que não seja ruído depois do vinte e pouco.

No que diz respeito à conquista de audiência para uma TV em construção, com dificuldades técnicas e sem uma clara definição de programação, os desafios são imensos. Claro que audiência é um objetivo, mas ela é construída em médio e longo prazo tanto nas emissoras comerciais como na pública. Não há receita e nem mágica nesse campo, mas uma atuação coordenada e persistente.

Em síntese, a criação de uma empresa pública de radiodifusão no Brasil foi um avanço e uma conquista que não está consolidada. Ou seja, recuperar o projeto inicial, ampliar a participação social e conferir maior caráter público à iniciativa ainda são tarefas atuais, que podem ou não ser alcançadas.

Propaganda contrária da mídia hegemônica
Além desses desafios, que não são pequenos, a implantação da rede pública sofre ainda com a propaganda contrária da mídia hegemônica. Enxurradas de notícias, editoriais e comentários nos jornais, rádios, revistas e emissoras de televisão bombardeiam a iniciativa que eles caracterizam como interferência estatal no setor. Não seria de se esperar outra coisa, afinal o sistema de radiodifusão no Brasil nasceu e cresceu a partir do modelo comercial, sem praticamente nenhuma contrapartida social e de espírito público, ignorando o fato de que todo canal de televisão e rádio é uma concessão pública.

As notícias sobre a crise na EBC, sobre o ‘abandono’ dos conselheiros do Conselho Curador, da renúncia do presidente Luiz Gonzaga Belluzo, as críticas à gestão administrativa e ao conteúdo são insufladas pela mídia e objetivam desmoralizar o projeto até que ele sucumba. O fracasso da rede pública interessa apenas ao setor comercial, que têm o monopólio da fala.

Defender o projeto da rede pública de televisão é tarefa da sociedade e dos movimentos sociais. Isso não pressupõe, entretanto, a falta de visão crítica sobre o projeto que está em curso. É preciso denunciar a posição que a mídia hegemônica e os setores conservadores têm tido e tomar cuidado para não fazer coro com suas posturas. De outro lado, temos que fazer a crítica determinada sobre os desvios do projeto e pressionar para que a sociedade tenha mais participação na construção da nova rede.

Essa, sem dúvida, é um pauta fundamental nos debates da 1ª Conferência Nacional de Comunicação.

29.7.09

A vida como ela é

Neste julho frio e úmido, uma boa pedida é o sofá, um bom filme, um bom vinho. No último final de semana, assisti em casa a dois filmes pouco divulgados que mostram a sensibilidade de ver e viver a vida como ela é.

Reflexos da Inocência e Uma amizade sem fronteiras são crônicas do cotidiano de personagens comuns, da vida sem glamour e retoques. Histórias que não têm compromisso com o famigerado ‘happy end’ ou com explicitar ‘a moral da história’, ainda que eles existam – cada um a sua maneira.

No drama Reflexos da Inocência, dirigido por Baillie Walsh, Joe Scott – um ator holywoodiano entregue às drogas e exageros do show bizz – recebe a notícia da morte de seu amigo de infância. Começa ai um carrossel de lembranças que montam a narrativa e constroem o próprio personagem a partir de sua adolescência na Inglaterra dos anos 70.

Interpretado por Harry Eden na fase adolescente, o jovem Joe Scott foge para os Estados Unidos depois de uma tragédia que contou com sua participação – ainda que indiretamente. Os dilemas do certo e errado contrastam com a realidade que envolve as pessoas, num dia-a-dia formado pela sucessão de acontecimentos. E, por mais dramáticos que estes sejam, não paralisam a vida, mas a moldam. Assim, o Joe Scott adulto – interpretado na fase adulta por Daniel Craig, que se consagrou como o novo James Bond – ao voltar para o enterro do amigo, se dá conta de que o presente é outro e o passado está onde deveria estar – no passado.

Uma amizade sem fronteiras conta a vida de Momo (Pierre Boulanger), um adolescente abandonado pela mãe e criado pelo pai numa rua de prostitutas do subúrbio parisiense da década de 60. O rapaz de 16 anos, que está descobrindo o sexo e o amor, se vê abandonado também pelo pai. A amizade com o dono da mercearia, Ibrahim (Omar Sharif), um turco mulçumano também solitário, é tudo o que lhe resta. Sem melodrama, a narrativa mostra os desafios da vida e seu ciclo, nem sempre virtuoso.

As fronteiras de idade, religião e nacionalidade não existem para Momo e Ibrahim, o primeiro carente de uma figura paterna e o segundo de um filho a quem ensinar o que aprendeu na vida e no Alcorão. Os dois solitários se encontram e vivem uma breve, mas intensa amizade, e Momo, ao final, herda a vida de Ibrahim.

Dois filmes cheios de vida e realidade. Valem a pena.

.... E para acompanhar, minha dica é....
Uma tábua de queijos e um bom vinho - se puder, experiente o argentino Luigi Bosca - Malbec - DOC (De Origem Controlada)

Ficha Técnica

Reflexos da Inocência
Título Original: Flashbacks of a Fool
Gênero: Drama
Direção: Baillie Walsh
Ano: 2008
Elenco:
Daniel Craig
Claire Forlani
Harry Eden
Helen McCrory
Mark Strong

Amizade Sem Fronteiras
Título Original: Monsieur Ibrahim et les Fleurs du Coran
Gênero: Drama
Direção: François Dupeyron
Ano de Lançamento (França): 2003
Elenco:
Omar Sharif
Pierre Boulanger
Gilbert Melki
Isabelle Renauld
Lola Naymark
Anne Suarez
Mata Gabin
Céline Samie
Isabelle Adjani

16.7.09

Um vale para a Cultura e a formação de novos públicos

Numa iniciativa que visa dotar o Estado de políticas públicas na área da Cultura e que estejam voltadas para o público e não para o artista, o governo federal lança o Vale Cultura. De acordo com a lei, que será assinada pelo presidente Lula, o trabalhador de baixa renda receberá um vale mensal no valor de R$ 50,00 para ter acesso aos bens culturais (cinema, teatro, museus, espetáculos musicais etc).

A expectativa é que a medida atinja 14 milhões de trabalhadores e injete, de forma direta, R$ 600 milhões por mês no mercado cultural, atingindo cerca de R$ 7 bilhões ano (sete vezes mais do que a Lei Rouanet), de acordo com informações publicadas nesta quinta, no O Estado de S. Paulo.

Formação de públicos
Não são poucos os méritos da iniciativa, que adota um novo foco para a política pública na área de cultura. Porém, a limitação econômica para acessar os bens culturais é apenas uma face do problema da formação de públicos no Brasil. Mesmo nas classes A e B o público que 'consome' cultura no País é restrito.

A ausência de uma formação educacional voltada para a degustação da cultura, como complemento da construção do sujeito crítico e cidadão é um dos fatores limitantes. Poucas escolas formais incorporam em sua estrutura pedagógica esse elemento. Não me refiro apenas às escolas públicas, carentes de tudo. Mas também no ensino privado esse valor cultural é menosprezado.

Outro aspecto que contribui para a baixa presença de públicos é a concentração da maioria dos equipamentos culturais (teatros, shows, cinemas, museus) em regiões centrais dos grandes centros urbanos, que são de difícil acesso aos moradores dos bairros mais distantes. De que adianta o vale para assistir uma montagem teatral no Teatro Sérgio Cardoso, por exemplo, se a pessoa mora em Ermelino Matarazzo? Não é apenas o valor gasto no deslocamento que limita, a distância e os horários também. Para uma família que não possuí automóvel, o retorno para casa fica praticamente inviabilizado a depender do horário do espetáculo, em razão do modelo de funcionamento do transporte público na cidade, para dar o exemplo da capital paulista.

Vale lembrar que há disponível espetáculos culturais por preços populares que variam entre R$ 5,00 e R$ 10,00, muitos gratuitos e que não conseguem atrair novos públicos em razão dos problemas listados acima.

E como seduzir um trabalhador que pouco ou quase nenhum contato teve em sua vida com espetáculos culturais para assistir uma ópera, ou uma montagem de Shakespeare, ou mesmo um filme no cinema que não seja um blockbuster enlatado norte-americano?

Estes são desafios que o Vale Cultura não enfrentará por si só. Não quero com isso, dizer que a iniciativa não seja oportuna, mas precisa vir complementada por uma política que vise formar novas audiências, contribuindo assim para a elevação do nível cultural e, consequentemente, com a formação crítica e cidadã das pessoas. Seria um ganho espetacular para a sociedade.

6.7.09

Cuidado! O Ecad pode pegar você!

Não é bicho-papão, nem mula-sem-cabeça, mas anda rondando as noites e pode pegar você. Estou falando do Ecad - Escritório Central de Arrecadação e Distribução de Direitos Autorais. São seus fiscais que observam o pagamento devido dos direitos autorais pela execução de músicas em rádios, espetáculos, casas de show.

Eles - que já eram o pesadelo de muitos músicos e estabelecimentos - agora vão ser 'a mosca na sopa' do seu casamento, festa de aniversário, chá de bebê, chá de cozinha, despedida de solteiro. Isso porque o Ecad anunciou que irá fiscalizar eventos sem fins lucrativos para verificar se a devida taxa pela execução de obra artística foi recolhida. Caso contrário, você ganhará um multinha por estar ouvindo na sua festa um Kid Abelha, ou um Paralamas, Axé, Sertanejo, fique à vontade para escolher o ritmo e o artista que receberá o pagamento para ser escutado.

Acontece que isso é descaradamente um abuso de poder e extrapola as funções do Ecad. Cobrar pela execução de obras em eventos sem fim lucrativos, e pior ainda, privados é totalmente inconstitucional.

23.6.09

Será que o Caetano precisa da Lei Rouanet?

Na queda de braço entre os produtores musicais de Caetano Veloso e o Ministério da Cultura os primeiros saíram vencedores. O prêmio foi a liberação de R$ 1,7 milhão para a turnê do cantor “Zii e Zie”.

Eles ingressaram com projeto para arrecadar R$ 2 milhões através da Lei Rouanet para os shows do cantor. Em maio, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), instância do Minc que analisa os projetos, negou autorização para a inclusão do projeto na captação de recursos através da Lei de Incentivo à Cultura, por considerar que a turnê, que deve passar por 22 capitais, não precisa de incentivo por ser comercialmente viável.

Contudo, essa não foi a avaliação do ministro Juca Ferreira, que reviu a decisão da CNIC e liberou os recursos para Caetano. "Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação para irmã Dulce ou para Madre Teresa de Calcutá”, afirmou o ministro da Cultura em entrevista à Folha de S.Paulo publicada em 13/06.

Residem nesse episódio ao menos duas questões que mereceriam maior reflexão. A primeira é discutir a legitimidade ou não de artistas como Caetano Veloso pleitearem recursos da Rounaet para seus empreendimentos. A segunda é avaliar qual o papel do Estado na promoção de políticas públicas de cultura e a triste declaração do ministro Juca Ferreira.

Legitimidade ou não
Se não há restrição explicita na legislação que impeça o artista, não há conflito legal em ingressar com projetos. Contudo, há no meu entendimento um conflito moral. A não ser que o projeto em tela se destinasse a estender a turnê para palcos alternativos (me refiro a regiões de baixa renda nas capitais e cidades do interior) e para públicos que em situação normal não teriam acesso ao espetáculo, não considero legítimo por parte de Caetano Veloso – um artista que conhece tão bem a realidade do país e que procura ser tão crítico politicamente – a ingressar com tal pedido.

A contrapartida apresentada pelo Minc de redução dos valores do ingresso não atende ao critério anterior. Vejamos: a turnê Zii Zie está sendo apresentada em teatros como o Chevrolet Hall em Belo Horizonte, Floripa Music Hall e espaços que por sua localização e natureza já selecionam o público. Ao fim e ao cabo, com um ou outra exceção, os beneficiados pela redução dos ingressos serão o público que pagaria o ingresso sem o valor do subsídio.

Quem é malsucedido?
O outro aspecto é a conduta do ministro Juca Ferreira e sua no mínimo infeliz declaração. Artista malsucedido para ele é o que exatamente? Aquele que não alcançou a visibilidade da fama e ganhou as ondas do rádio e da TV? Artista malsucedido é aquele que por opção ou força das circunstância tem uma carreira restrita ao teatro e não tem o ibope das novelas da Rede Globo? Artista malsucedido é aquele que rala diariamente para ganhar o pão de cada dia como músico nos bares da vida, ou o artista plástico que não alcançou as grandes galerias de arte?

Ouvir de um ministro de Estado, responsável por promover a Cultura que sua função não é ser a irmã Dulce ou Madre Tereza de Calcutá é uma ofensa que valeria, sem hesitação, um convite para o olho da rua. Ora, é exatamente o papel do governo, do poder público criar, desenvolver, implementar e gerir projetos que promovam a inclusão e a difusão da produção cultural, digamos, não visível. Nesse sentido, a referência as reconhecidas e respeitadas ações de irmã Dulce e Madre Tereza de Calcutá deveriam ser uma referência orgulhosa do ministro e não negativa.

O debate em torno das Leis de Incentivo à Cultura, em particular a Rouanet, esbarra sempre no fato de que, uma fatia considerável dos projetos de renúncia fiscal para incentivar a cultura é destinada a grandes produções que se viabilizariam comercialmente – talvez com uma margem menor de lucro – sem ela. Não quero com isso dizer que peças, filmes e shows dos tais “artistas consagrados” estejam automaticamente vedados para buscar tais benefícios, mas sim que eles devem ser concedidos sempre visando a promoção e inclusão dos setores sociais mais populares e carentes.

Sobre o assunto, a coluna da Mônica Bergamo de 16 de junho, procurou o cantor após o seu show, em São Paulo, veja a saia justa que vestiu o Caetano:

CAETANO E A LEI ROUANET
Você não está entendendo quase nada do que eu digo...

"Sinceramente, nunca pensei a Lei Rouanet do ponto de vista da música popular. Sempre considerei o negócio da música muito bem-sucedido no Brasil. Não parecia precisar de incentivos maiores do que os que já tinha. A área que me vem à mente logo que se fala em Lei Rouanet é a do cinema."

As palavras são de Caetano Veloso, numa entrevista para a revista "Cult" que está nas bancas. Ele, no entanto, poderá se beneficiar da própria Lei Rouanet. Como revelou a Folha, os produtores do cantor apresentaram projeto para captar dinheiro para o "Tour Caetano Veloso", no valor de R$ 2 milhões, que prevê shows do novo CD do cantor, "Zii e Zie", em 22 capitais.
A comissão que analisa as propostas negou autorização para captação por entender que o projeto não precisa de incentivo por ser comercialmente viável. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, já sinalizou, na semana passada, que pode rever a decisão.

A coluna teve acesso ao camarim de Caetano logo depois do show dele, em SP, na sexta. E tentou saber do próprio cantor se ele mudou de opinião. Abaixo, o diálogo dele com a repórter Adriana Küchler, que foi gravado:

FOLHA - Estão me expulsando daqui [meia hora depois do fim do show, a assessoria do cantor pediu à coluna que saísse do camarim]. Deixa eu fazer uma pergunta.
CAETANO VELOSO - Você disse que tinha duas. Faça logo que a gente se livra. Se eu souber a resposta.

FOLHA - Sobre a história da Lei Rouanet. Você deu uma entrevista para a revista "Cult" falando que pensava na Lei Rouanet mais para o cinema e não para a música.
CAETANO - É, naquela altura, foi o que eu disse na entrevista. É isso mesmo.

FOLHA - Mas você acha que hoje a música popular precisa de incentivo?
CAETANO - Não, não acho, continuo pensando a mesma coisa. É aquilo que eu disse. A Folha já me entrevistou sobre isso. Eu mandei uma resposta bem clara. Eu conversei com o ministro [Juca Ferreira]. Eu mandei por e-mail essa entrevista [o e-mail de Caetano é o seguinte: "Não. Não há nenhum estremecimento entre mim e o ministro [Juca]. Ele foi assistir ao meu show em Brasília e conversamos bastante"].

FOLHA - E a tua opinião mudou? Era isso que eu queria entender. CAETANO - Não, não mudou. Por que mudaria?

FOLHA - Porque hoje você acha que a música precisa de incentivo...
CAETANO - Quem disse que eu acho? Por que você tá me dizendo o que eu acho?

FOLHA - Porque o seu projeto está inscrito para [captar dinheiro pela Lei Rouanet]...
CAETANO- [interrompendo] Não, isso é outra coisa. Os projetos são todos inscritos. Entendeu? Eu não acho isso. Eu acho o que eu disse. Tá?

FOLHA - Tá bom.
CAETANO- Pode ir embora.

FOLHA - Tá bom. Tô indo.
CAETANO- Vá logo.

FOLHA - Tá bom.
CAETANO- Mas vá logo.

FOLHA - Tô indo, Caetano. Boa noite.
CAETANO- Boa noite.

A assessoria do cantor afirma que ele não se incomodou com o tema da conversa, mas sim com a forma de abordagem e o momento - o cantor não gosta de receber repórteres para entrevistas no camarim em dias de estreias de seus shows.