18.11.06

Um mergulho no Céu de Suely


Mergulhar nos sonhos de Hermila, viajando pelo Brasil ao seu lado, é reconhecer um pouco que seja dos desejos de muitas mulheres e, porque não, de muitos homens deste imenso país. Quem é Hermila? É Suely, mas poderia ser Joana, Cláudia, Fernanda, Renata.

"O Céu de Suely", segundo longa-metragem de Karim Aïnouz (Madame Satã) é esse mergulho. Almodóvar e suas mulheres é como se referem às obras do diretor espanhol. Agora, temos Karim e suas mulheres. A história do filme é fundamentalmente feminina, sem ser em nenhum momento feminista.

Aïnouz procurou na realidade a ficção, e vice-versa. Os personagens se emaranham com atrizes e atores, a ponto de não se saber onde começa e acaba um ou outro. A começar pela escolha, inédita, de adotar no filme o nome real de cada ator. "Emprestei mais do que meu corpo a Karim, eu lhe dei a minha alma" disse Hermila Guedes, que viveu Hermila, sua primeira protagonista.

O céu, sempre grande na tela, nos remete a imensidão de nós mesmos, aos dilemas sociais contemporâneos da globalização que vai abraçando ao seu modo cada cantinho do país, numa mistura que liberta e ao mesmo tempo oprime.

Depois de deixar Iguatu, no sertão do Ceará, para viver com seu amor juvenil as descobertas e possibilidades da ‘cidade grande’, Hermila retorna à terra natal com um filho nos braços, a espera que logo em seguida o marido se junte a ela.

A narrativa, sem tropeços, mas também sem querer abarrotar o espectador de informações, vai mostrando quem é Hermila que, ao se deparar com o fato de que o marido a abandonara, sai em busca de outros caminhos para encontrar o seu paraíso.

O olhar para o nordeste também é outro em "O Céu de Suely". Menos estigmatizado, ele mostra que o lá e o cá estão integrados. Há um pouco de Iguatu em cada metrópole deste país, assim como há um pouco de São Paulo em Iguatu, ainda que pelas mechas descoloridas do cabelo de Hermila.

A fotografia de "O Céu de Suely" é ousada e abusa de quadros desfocados, que podem ser vistos tanto como uma opção estética, mas também como um elemento narrativo, já que a própria vida muitas vezes parece perder o foco. A excelência da captação e edição de som merece registro, num cinema nacional tantas vezes criticado por deficiências neste campo.

A trilha sonora é marcada por versões de grandes sucessos internacionais. A escolha foi proposital, segundo Aïnuouz "faz parte da construção do cenário que é local e global, marca dos dias atuais".

Vencedor do Festival do Rio (Melhor Filme, melhor diretor e melhor atriz), O Céu de Suely é uma das melhores produções nacionais dos últimos tempos. Mergulhe de cabeça.

Ficha Técnica:
O Céu de Suely – 88 min.
Direção – Karim AïnouzProdução – Walter Salles, Maurício Andrade Ramos, Hengameh Panahi, Thomas Häberle, Peter Rommel (Brasil, França, Alemanha, Portugal)
Elenco - Hermila Guedes
Georgina Castro
Maria Menezes
João Miguel
Zezita Matos
Mateus Alves
Gerkson Carlos

resenha escrita para o site www.estudantenet.com.br

31.10.06

Manual de Auto-Ajuda

Um rápido giro pelos principais portais de notícias, blogs e outros meios dá mostras de que está aberta a temporada de balanço da mídia brasileira. O que isso terá de conseqüências ainda é cedo para dizer.
Conflitos entre partes e inteiros sobram nesse debate que, para ter algum efeito positivo e concreto irá carecer de direcionamento. Cabe a pergunta: de quem? A resposta pode desagradar a maioria da coorporação jornalística mas acredito ser um tanto óbvia - do Estado.
Sim, porque os meios de comunicação são concessões públicas, e deveriam estar prestando um serviço público, de interesse da sociedade.
Bem, ai começam as várias interpretações que levam a debates fossilizados e chavões: isso é interveção, censura, tráfico de influência, e por ai vai.
O fato é que se não houver um rumo, toda essa discussão acabará se transformando em terapia barata e, quem sabe, renderá manuais de auto-ajuda, mas não interferirá decisivamente para a democratização e pluralidade dos nossos meios de comunicação.

30.10.06

Não haverá trégua da mídia!

Domingo, 29 de outubro. 18 horas. Acomodada em um bar da Prainha, quarteirão de botecos na esquina da Av. Paulista com a Joaquim Eugênio de Lima, acompanhava pela tevê a apuração das eleições 2006, plugada na GloboNews. A emissora dava, regularmente, a evolução da contagem dos votos para os governos estaduais que tiveram disputa em 2º turno.
Até então, a emoção estava por conta da diferença voto a voto no Paraná. O resultado presidencial ainda não podia ser noticiado, já que a votação no Acre só se concluiria às 19 horas de Brasília, devido ao fuso horário.
Entre uma cerveja e outra, o pessoal ia chegando, comentando, fazendo especulações. De repente, uma gritaria geral. Olho na telinha e vejo: 85% das urnas apuradas – Lula 60,7% dos votos válidos e Alckmin pouco menos de 39%.
Os resultados confirmavam o que as pesquisas já indicavam: Lula não só ganharia, como Alckmin teria uma votação menor do que a obtida no 1º turno.
Mas qual não foi a minha surpresa quando, logo em seguida, com Lula já matematicamente eleito, o GloboNews entra com reportagem sobre o presidente – algo como saiba mais sobre o presidente reeleito. A reportagem nada falava diretamente de Lula, de sua trajetória política rumo ao primeiro e, posteriormente, ao segundo mandato. Não. Nem tampouco sobre as realizações de seu governo.
O que a reportagem trazia eram spots mostrando a cronologia da crise política, iniciada com as denúncias contra Zé Dirce, Waldomiro Diniz; Pallocci e o caseiro Francelino, a compra do dossiê e lógico a imagem da montanha de dinheiro.
Ou seja, mesmo derrotada, a imprensa e seu bombardeio contra o presidente, deu mostras que não haverá trégua. Mesmo tendo seu discurso golpista ignorado por mais de 58 milhões de brasileiros, insistem na mesma tecla, como num samba de uma nota só, órfãos de argumentos e conteúdo; perdidos diante da avassaladora vitória do atual governo.
O papel que a mídia jogou nestas eleições foi preocupante, deixando de lado a notícia e abraçando a opinião ideológica, fazendo não jornalismo, mas propaganda camuflada.
Um segundo mandato do presidente Lula precisa enfrentar a questão da democratização dos meios de comunicação de forma decidida, com ousadia. A sociedade não pode mais ficar refém de meia dúzia de empresas familiares que dirigem a mídia nacional, transmitindo o que lhes interessa, e que, na maioria das vezes, não interessa a maioria do povo e ao país.
Fiquemos atentos e vamos começar a cobrar, desde já, que se inicie esse debate para promover a pluralidade de idéias e opiniões.