24.11.06

1972 – filme ou almanaque?


Tudo começou com a idéia de fazer um almanaque. Primeiro veio o estrondoso sucesso do ‘Almanaque anos 80’, que cativou a geração que cresceu assistindo Bozo, brincando de Cubo Mágico e mascando Bubbaloo.

Em seguida, pegando carona nessa onda, veio o ‘Almanaque anos 70’, organizado pela jornalista Ana Maria Bahiana. Foi a vez da geração que circulava de Fusca, assistia Dancing Days e curtia rock n´roll ter o seu livro de recordações. Só que Bahiana quis mais do que um livro, ela quis um filme, e nasceu ‘1972’.

Dirigido pelo jornalista José Emilio Rondeau, ‘1972’ tenta retratar uma geração que procurava construir uma identidade em meio a um país castrado pela ditadura militar. No filme, os antagonismos se dão pela contraposição dos personagens que vivem na periferia e os da zona sul carioca. Os sonhos de sucesso do jovem Snoopy (Rafael Rocha), que luta para vencer na vida e sair do subúrbio com sua banda de rock – Vide Bula; e os de Júlia (Dandara Guerra), moça rica que tenta reconhecimento como jornalista sem que seja preciso a influência dos pais.

Os dois se cruzam e, como já é de se esperar, se apaixonam e vivem os conflitos de um amor entre classes sociais. Os estreantes Rafael Rocha e Dandara Guerra, filha de Cláudia Ohana e Ruy Guerra, não convencem em suas interpretações. Tony Tornado rouba a cena como Tião, um militar que vive com o fantasma da tortura e acaba sendo conselheiro de Snoopy. Vale o destaque para as atuações de Bem Gil – Zé e Débora Lamm – Monique.

A história do filme, já cansada, vai se desenvolvendo sem muita criatividade. As seqüências mais se parecem com as páginas de um almanaque que podem ser folheadas sem que haja uma ordem. A trilha sonora, que poderia ser um diferencial, dada a riqueza dos efervescentes anos 70, deixa a desejar.

Enfim, o ano de 1972 assim como toda a década de 70 foram anos intensos, ao contrário do filme, que se arrasta sem saber aonde quer chegar e o que quer ser. Melhor investir no Almanaque.

Ficha técnica
1972
– 104 min.
Direção – José Emilio Rondeau
Produção – Ana Maria Bahiana e Tarcísio Vidigal
Elenco: Rafael Rocha, Dandara Guerra, Bem Gil, Débora Lamm, Dudu Azevedo, Lúcio Mauro Filho, Louise Cardoso, Pierre dos Santos, Tony Tornado

Publicado no www.estudantenet.com.br

18.11.06

Um mergulho no Céu de Suely


Mergulhar nos sonhos de Hermila, viajando pelo Brasil ao seu lado, é reconhecer um pouco que seja dos desejos de muitas mulheres e, porque não, de muitos homens deste imenso país. Quem é Hermila? É Suely, mas poderia ser Joana, Cláudia, Fernanda, Renata.

"O Céu de Suely", segundo longa-metragem de Karim Aïnouz (Madame Satã) é esse mergulho. Almodóvar e suas mulheres é como se referem às obras do diretor espanhol. Agora, temos Karim e suas mulheres. A história do filme é fundamentalmente feminina, sem ser em nenhum momento feminista.

Aïnouz procurou na realidade a ficção, e vice-versa. Os personagens se emaranham com atrizes e atores, a ponto de não se saber onde começa e acaba um ou outro. A começar pela escolha, inédita, de adotar no filme o nome real de cada ator. "Emprestei mais do que meu corpo a Karim, eu lhe dei a minha alma" disse Hermila Guedes, que viveu Hermila, sua primeira protagonista.

O céu, sempre grande na tela, nos remete a imensidão de nós mesmos, aos dilemas sociais contemporâneos da globalização que vai abraçando ao seu modo cada cantinho do país, numa mistura que liberta e ao mesmo tempo oprime.

Depois de deixar Iguatu, no sertão do Ceará, para viver com seu amor juvenil as descobertas e possibilidades da ‘cidade grande’, Hermila retorna à terra natal com um filho nos braços, a espera que logo em seguida o marido se junte a ela.

A narrativa, sem tropeços, mas também sem querer abarrotar o espectador de informações, vai mostrando quem é Hermila que, ao se deparar com o fato de que o marido a abandonara, sai em busca de outros caminhos para encontrar o seu paraíso.

O olhar para o nordeste também é outro em "O Céu de Suely". Menos estigmatizado, ele mostra que o lá e o cá estão integrados. Há um pouco de Iguatu em cada metrópole deste país, assim como há um pouco de São Paulo em Iguatu, ainda que pelas mechas descoloridas do cabelo de Hermila.

A fotografia de "O Céu de Suely" é ousada e abusa de quadros desfocados, que podem ser vistos tanto como uma opção estética, mas também como um elemento narrativo, já que a própria vida muitas vezes parece perder o foco. A excelência da captação e edição de som merece registro, num cinema nacional tantas vezes criticado por deficiências neste campo.

A trilha sonora é marcada por versões de grandes sucessos internacionais. A escolha foi proposital, segundo Aïnuouz "faz parte da construção do cenário que é local e global, marca dos dias atuais".

Vencedor do Festival do Rio (Melhor Filme, melhor diretor e melhor atriz), O Céu de Suely é uma das melhores produções nacionais dos últimos tempos. Mergulhe de cabeça.

Ficha Técnica:
O Céu de Suely – 88 min.
Direção – Karim AïnouzProdução – Walter Salles, Maurício Andrade Ramos, Hengameh Panahi, Thomas Häberle, Peter Rommel (Brasil, França, Alemanha, Portugal)
Elenco - Hermila Guedes
Georgina Castro
Maria Menezes
João Miguel
Zezita Matos
Mateus Alves
Gerkson Carlos

resenha escrita para o site www.estudantenet.com.br

31.10.06

Manual de Auto-Ajuda

Um rápido giro pelos principais portais de notícias, blogs e outros meios dá mostras de que está aberta a temporada de balanço da mídia brasileira. O que isso terá de conseqüências ainda é cedo para dizer.
Conflitos entre partes e inteiros sobram nesse debate que, para ter algum efeito positivo e concreto irá carecer de direcionamento. Cabe a pergunta: de quem? A resposta pode desagradar a maioria da coorporação jornalística mas acredito ser um tanto óbvia - do Estado.
Sim, porque os meios de comunicação são concessões públicas, e deveriam estar prestando um serviço público, de interesse da sociedade.
Bem, ai começam as várias interpretações que levam a debates fossilizados e chavões: isso é interveção, censura, tráfico de influência, e por ai vai.
O fato é que se não houver um rumo, toda essa discussão acabará se transformando em terapia barata e, quem sabe, renderá manuais de auto-ajuda, mas não interferirá decisivamente para a democratização e pluralidade dos nossos meios de comunicação.