23.10.14

Sou de direita com muito orgulho**

Há alguns anos atrás, a afirmação acima poderia soar estranha. Mas hoje não mais.

No final da década de 80 e nos anos 90, o regime militar que governou o Brasil por 25 anos não era apenas uma memória do passado. Era algo muito presente. Defender a ditadura ou se dizer de direita era uma coisa que se aproximava do politicamente incorreto, dava vergonha, certo medo de como os outros iriam me julgar. Era como remar contra a maré da democracia. Isso não significa que estufar o peito e se dizer de esquerda era algo mais em voga.

Na verdade, o momento simbólico que marca definitivamente o fim do regime militar no Brasil, a promulgação da Constituição de 1988, ocorreu no contexto do fim da chamada Guerra Fria, que teve o seu final simbólico com a derrubada do Muro de Berlim, em 1989.

Este foi um momento em que surgiram com força os ideólogos do “fim da história”, ou seja, de que não havia mais luta de classes, tentando inclusive acabar com essa coisa de esquerda e direita. É tudo a mesma coisa, há diferença de gestão, de posição aqui e ali, mas a sociedade havia superado os conflitos de classe, pregavam.

Teorias a parte, a verdade é que os conflitos nunca deixaram de existir (há quem diga que nunca deixarão, uma vez que são conflitos inconciliáveis) e, no Brasil, a esquerda e a direita continuaram ativas. A esquerda mais organizada, protagonista e militante; e a direita mais desorganizada e por um longo período um tanto quanto envergonhada de se assumir.

Com a vitória de Lula e Dilma que deram outros rumos para a economia, para as relações internacionais, para projetos sociais etc, muito diferentes dos que tinham sido historicamente adotados no Brasil até 2002, nós da direita começamos a nos incomodar muito.

Passa ano, entra ano, três eleições presidenciais depois e o que poderia ser um incômodo passou a ser algo muito mais perigoso: a possibilidade de consolidação de um projeto político que colide de forma muito forte com os nossos interesses, da direita.

Somado a isso, passaram-se muitos anos da ditadura, e ela hoje é uma lembrança para uma minoria na sociedade e um tópico nos livros de história para tantos outros. A ditadura não assusta mais.
Pronto, estão dadas as condições históricas e conjunturais para eu sacudir a poeira e tirar o velho paletó do armário e assumir, com orgulho, minha posição política: sou de direita.

Bom, tudo bem, mas não é só isso. Sou de ultradireita. Porque eu não defendo apenas o retorno das políticas neoliberais e mudanças de rumo na economia, nas relações internacionais e nas políticas sociais. Não, isso é pouco. Eu sou contra esse papo de direitos humanos.

Aonde já se viu homem ir parar na cadeia porque agride a mulher! Basta! Vamos acabar com isso. Se a mulher apanhou é porque mereceu e ponto.

E esse negócio de direitos para os homossexuais. Pelo amor de Deus, isso é um desvio, uma doença. No mínimo tem que tratar o coitado ou a coitada. Eu defendo a FAMÍLIA.

E o que é isso de descriminalizar o aborto, mulher que aborta tem que ser presa, assassina.

E essa juventude negra, favelada, agora se achando cheia de impunidade. Esses trombadinhas têm que ir para a cadeia, por isso eu defendo a redução da maioridade penal e outra coisa, presídio não tem que ser público. Vamos privatizar tudo.

Há, tem também que acabar com essa Comissão da Verdade e parar de fuçar no que aconteceu durante a década de 60 e 70 no Brasil. Para com essa história de querer punir torturadores. Não houve tortura, aliás, nem ditadura houve. A Revolução de 64 foi um mal necessário. Foi o Estado brasileiro caçando os terroristas, bandidos, comunistas que queriam transformar o Brasil em Cuba, ou União Soviética e pior, que estão soltos ai até hoje, agora, querendo fazer aqui no Brasil o bolivarianismo (mesmo que eu não saiba direito o que isso significa, mas se a mídia diz que é ruim, então tá dito),

Fora tudo isso tem essa ascensão social, a gente tem que conviver com cada gente que agora viaja de avião, frequenta restaurantes, cinemas, shoppings.

Nossa, estou me sentindo muito à vontade. Fazia muito tempo que eu tinha todas essas – e muitas outras – opiniões presas na garganta e não podia falar. Mas agora tudo mudou.

E foi lindo poder participar da manifestação contra os comunistas no Largo da Batata, ontem. Mandei a presidente ir tomar no cu, como fiz na abertura da Copa; gritei Viva a Política Militar, esse órgão fundamental dos paulistas para manter a ordem e impedir a baderna desses desocupados (estudantes, sindicalistas, sem-terra, sem-teto). Adorei a musiquinha que o pessoal inventou lá na hora “Ei, ebola, leva a Dilma embora”. Finalmente tive um espaço para destilar todo o meu ódio contra essa gente.

Durante o ato, me perguntaram se eu sabia alguma proposta do Aécio, o meu candidato para a presidência. Tinha até esquecido que estava lá para por causa dele. Proposta? Que importa? Eu quero é tirar esse PT daí.

**Sim, leitor, leitora, essa pessoa que eu criei, não é ficção, ela foi inspirada em dezenas de milhares que estão pipocando nestas eleições. Elas existem e são de carne e osso. E não será com ódio no coração, e nem com o fígado, que vamos impedir que este pensamento de direita cresça no Brasil. 

Vamos ter que fazer o debate de ideias, a empoeirada disputa ideológica. Esperemos que com respeito às diferenças, por mais que isso possa parecer, neste momento, difícil.

Domingo, um round desta luta termina. Na segunda, que o novo round seja disputado com lealdade e firmeza de posições, mas com muito amor no coração.


Domingo eu sou Dilma! Para o Brasil não abrir retroceder e abrir o caminho para que estes pensamentos se disseminem ainda mais.

Se tiver curiosidade, leia a matéria do UOL sobre a cobertura do ato do dia 22 aqui

8.10.14

Proposta de Aécio para a economia do Brasil

Neste 2º turno, a polarização eleitoral vai aumentar. O país tem 20 dias para escolher que caminho vai seguir nos próximos anos. Acho que é preciso qualificar a discussão, o que significa sair da simples retórica do ser contra por ser contra e ponto final.

Nos últimos meses, cresceu um discurso de ódio contra a presidenta Dilma Rousseff. Não odeio Aécio Neves, nem tampouco amo Dilma Rousseff. E precisa? A discussão que temos que fazer é política. Nossa escolha não é entre Dilma e Aécio, mas sim entre os projetos que cada um representa para o país. Precisamos olhar o Brasil que tínhamos, o que temos e o país que queremos ter. O que cada um fez, faz e fará por ele. Minha escolha, pelo projeto representado por Dilma Rousseff se apoia nesta reflexão.

Propostas econômicas, Aécio defende Alca e menos investimentos públicos

O programa de Aécio Neves é bastante explícito no resgate das principais orientações do modelo econômico neoliberal, que se baseia na redução do papel do Estado como indutor da economia e garantidor dos serviços públicos. Este é um dos motivos pelos quais eu não voto em Aécio Neves.

A política do Estado Mínimo foi desastrosa, na década de 90, no Brasil e em toda a América Latina. Gerou miséria, concentração de renda e desmonte de direitos sociais e trabalhistas. Nos países em que se manteve essa orientação, não houve crescimento econômico e a desigualdade só se aprofundou. Basta olhar, por exemplo, a situação do México. A lógica neoliberal – que privilegia o capital financeiro em detrimento do capital produtivo – resultou em uma das maiores crises econômicas da história, iniciada em 2008, com consequências terríveis nos Estados Unidos, na Europa e em outros países.

Em seu programa, Aécio Neves afirma explicitamente seu compromisso com a redução do papel do Estado. Ele coloca como principal meta econômica a geração de superátiv primário para conter a inflação. Mas ele oculta a informação para a sociedade de que no governo FHC, a inflação média anual era de 9,1%, enquanto nos governos Lula e Dilma é de 5,8%.

Para fazer este superávit, Aécio vai apertar o cinto e “limitar a taxa de crescimento dos gastos públicos”. Pretende reduzir o papel dos bancos públicos na oferta dos créditos, dizendo claramente que vai “definir critérios mais rigorosos para a concessão de créditos subsidiados” e que pode, inclusive, descontinuar tais políticas. A redução dos gastos públicos precisa ser feita, segundo o programa tucano, para conter a dívida pública. Mas eles ignoram o fato de que durante o governo de FHC a dívida líquida do setor público representava 60% do PIB, hoje representa 34%.

Aécio já anunciou o seu ministro da Fazenda, o ex-presidente do Banco Central dos anos FHC, Armínio Fraga, homem que defende abertamente o arrocho salarial, a redução de direitos trabalhistas que “elevam o custo Brasil” e grande defensor do capital financeiro. Atrás da retórica de que é preciso reduzir os juros, mais uma vez nega a informação de que em 2002 a taxa Selic era de 18.9%, enquanto em 2012 era de 8,5%. (aspas extraídas do programa de governo de Aécio que consta do seu site de campanha).

Ou seja, foi essa orientação econômica que, apenas em certa medida, foi alterada pelos governos Lula e Dilma. Digo isso porque o rompimento com a política macroeconômica ortodoxa deveria, na avaliação de muitos economistas, ter sido maior. Para alavancar o desenvolvimento econômico com base na produção e na geração de emprego e renda é indispensável que o Estado tenha papel destacado na indução deste projeto.

A diferença entre os dois projetos fica clara ao se comparar o desempenho da economia durante o governo de FHC e os últimos 12 anos. O PIB brasileiro era de R$ 1,48 trilhões em 2002 e saltou para R$ 4,84 trilhões em 2013 – mesmo com o cenário internacional desfavorável em razão da crise. Houve crescimento econômico no Brasil graças à política de investimento público, de enfrentamento dos problemas de infra-estrutura, com a realização de obras de grande porte, que geraram emprego com carteira assinada e renda no país. Em razão disso, o PIB per capita subiu de R$ 7,6 mil reais em 2002 para R$ 24,1mil em 2013. 

Indústria nacional e comércio exterior

O programa de Aécio Neves também não esconde a sua discordância com as várias políticas de valorização da indústria nacional e do mercado interno. Respeitando a lógica neoliberal de reforçar o papel do mercado e colocar a "competitividade" como chave mestra para o desenvolvimento da economia, diz que o Brasil precisa se integrar ao mundo, o que impõe reforçar as relações comerciais com Estados Unidos e Europa. 

A ideia é um contraponto à política externa de valorização das relações comerciais que privilegiam o eixo Sul-Sul e a integração com a América Latina. Seu programa critica abertamente o Mercosul e retoma a bandeira da Área de Livre Comércio das Américas. Se o Brasil tivesse ingressado na Alca, hoje o tsunami que devastou a economia norte-americana, em 2008, teria colocado o nosso país em uma situação gravíssima. Imagine como seria a história se o Brasil fosse, ainda, credor do Fundo Monetário Internacional nos marcos desta crise? Se não fosse a diversificação do comércio exterior – que nos anos FHC eram praticamente apenas com EUA e Europa – o Brasil teria literalmente quebrado.

O que nos permitiu resistir à crise foi justamente as políticas de fortalecimento do mercado interno e da indústria nacional e as novas parcerias comerciais. E o que Aécio propõe é retroceder à submissão econômica aos EUA e Europa, abandonar as políticas regionais de integração e ampliar a “competitividade” dos produtos nacionais com os estrangeiros, reduzindo as cargas tributárias sobre as exportações. Por isso eu não voto em Aécio Neves de jeito nenhum.

Eu defendo o fortalecimento do mercado interno, da indústria nacional, um posicionamento mais soberano do Brasil no mundo. Isso só foi viável porque os governos de Lula e Dilma investiram nos BRIC's, estimularam o Mercosul e participaram de outras iniciativas de integração econômica na América Latina.

Veja mais alguns dados econômicos* que comparam o desempenho do país a partir de 2002:

Posição entre as Economias do Mundo
2002 - 13ª
2014 - 7ª

Reservas Internacionais (Fonte: Banco Central)
2002 – 37 bilhões de dólares
2013 – 375,8 bilhões de dólares

Investimento Estrangeiro Direto (Fonte: Unctad-ONU)
2002 – 16,6 bilhões de dólares
2013 – 64 bilhões de dólares

Exportações (Fonte: Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio)
2002 – 60,3 bilhões de dólares
2013 – 242 bilhões de dólares

Produção de veículos (Fonte: Anfavea)
2002 – 1,7 milhões
2013 – 3,7 milhões

Safra Agrícola (Fonte: IBGE)
2002 – 97 milhões de toneladas
2013 – 188 milhões de toneladas

Índice Bovespa (Fonte: Bovespa)
2002 – 11.268 pontos
2013 – 51.507 pontos

Valor de Mercado da Petrobras (Fonte: Petrobras)
2002 – R$ 15,5 bilhões
2014 – R$ 104,9 bilhões

Lucro médio da Petrobras (Fonte: Petrobras)
Governo FHC – R$ 4,2 bilhões/ano
Governos Lula e Dilma – R$ 25,6 bilhões/ano

Falências Requeridas em Média/ano (Fonte: Serasa)
Governo FHC – 25.587
Governos Lula e Dilma – 5.795


* Parte destes dados já foram divulgados em outros sites, blogs e portais. Antes de reproduzi-los aqui eu chequei um a um e, ao lado, acrescentei a fonte que estou utilizando.

3.10.14

O trabalho não pode estar associado à morte

“Não pode ser que o trabalho esteja associado à morte. Nossa luta é muito maior do que apenas uma luta por melhores salários, claro dinheiro é importante, mas temos que defender a vida e a dignidade do trabalhador”, afirma Javier Diaz, dirigente nacional do Sindicato Unificado Nacional da Construção e Anexos – Sunca.

Depois de muita discussão, o Sunca conseguiu garantir a aprovação de uma Lei no parlamento uruguaio que penaliza os empregadores que coloquem em perigo a integridade física dos trabalhadores pelo não cumprimento das normas de segurança e higiene.

Por exemplo, se o trabalhador estiver em um lugar úmido, escorregadio, e não tiver um calçado apropriado isso é considerado um delito, porque mesmo que ele não se acidentar, corre o risco de, e isso já é considerado uma penalidade.

A Lei de Responsabilidade Penal, que está em vigor desde 14/03/2014, foi uma proposta do Sunca e se inspirou em leis de Saúde do Trabalho da Espanha e Peru. Foi polêmica na esquerda, inclusive houve parlamentares do campo popular que se posicionaram contra a lei, mas votaram a favor para não quebrar a disciplina partidária.

Existem quatro demandas judiciais contra a lei na Suprema Corte do Uruguai e o assunto tornou-se um dos principais temas desta campanha eleitoral no país. Os candidatos da direita no Uruguai, em particular Lacalle Pou tem afirmado que, se eleito, vai revogar a Lei. De outro lado, os trabalhadores prometem realizar grandes mobilizações nacionais em defesa desta conquista.

Iván Hafliger, da executiva do Sunca, destaca a importância desta lei para os trabalhadores. “Em 2012, entre 1º de janeiro e 1º de julho tivemos 7 mortes no trabalho na construção civil. Em 2013, neste mesmo período, tivemos 6 mortes. No mesmo período de 2014, ou seja, desde a aprovação da Lei, tivemos apenas 3 mortes. Esses três trabalhadores que não morreram já valem a lei. Ademais, o que disseram que iam acontecer, de que empresários seriam presos, não aconteceu. Não houve prisões. O que ocorreu é que os empresários precisaram respeitar as normativas e, ao fazer isso, evitaram que houvessem acidentes fatais”.

Outras conquistas

E as vitórias dos trabalhadores não se limitam a esta lei. Os trabalhadores da construção também conseguiram depois de muita luta aprovar uma lei que reduz o peso dos sacos de cimento, de 50 kg para 25 kg. “Carregar um peso de 50 kg nas costas traz importantes consequências para a nossa saúde, resultando em problemas de coluna, incapacidade e tantos outros. Agora, mudamos essa situação. Mesmo o cimento que é importado, precisa vir adequado à nova norma uruguaia”, explica Faustino Rodrigues, presidente do Sunca.

Também conquistaram a redução da jornada de trabalho de 48 horas semanais para 44 horas semanais, a garantia de pagamentos de 70% do valor da hora de trabalho para os dias parados por condições climáticas com a criação de um bolsão de horas.

Os trabalhadores do Uruguai de outros ramos da economia também têm obtido importantes conquistas. Aprovaram uma Lei para os trabalhadores domésticos, que não tinham nenhum direito consagrado, nem mesmo a cobertura previdenciária e piso salarial. Para os trabalhadores rurais, foi fixada uma jornada diária máxima de trabalho de 8 horas, com a obrigação de pagamento de horas extras para o tempo trabalhado, entre outras conquistas que vão compondo um elenco de direitos trabalhistas e sociais fundamental para garantir a dignidade e a valorização do trabalho.

“Temos que estar sempre em luta. Empresas são empresas e se comportam do mesmo jeito em todos os lugares. Por isso, as conquistas dependem da organização dos trabalhadores”, disse Javier Diaz, da direção do Sunca.

E as importantes conquistas alcançadas pelos trabalhadores na construção civil no Uruguai é uma demonstração de que politizar o debate sindical e investir na organização dos trabalhadores por local de trabalho continua sendo o caminho mais efetivo para fortalecer a unidade e alcançar vitórias.