20.3.07

O controle remoto e a TV Pública

Lembro-me quando criança da primeira TV de casa com controle remoto. Era um botãozinho que se ligava à TV por um fio. Sua única função era mudar de canal, sempre na mesma direção. Na prática não tinha função. Primeiro, porque o fio não alcançava o sofa. Segundo, porque com menos de uma semana de uso já estava quebrado. E, também, não havia assim tantas opções alternativas de canais, resumiam-se a 7 ou 8 emissoras abertas.

Hoje, os controles são multifuncionais, agregam mais de um aparelho em seus comandos e são como uma extensão do telespectador, ou da própria pessoa. Temos, também, um maior número de canais abertos e os fechados (via cabo ou satélite).

A soma dessas duas situações criou a geração do zapping, que tem uma sensação de poder, de autonomia. As grandes empresas de telecomunicações (que se resumem a 7 ou 8) valem-se dessa gama de canais e do poder do zapping para dizer que temos uma mídia democrática, e que é o telespectador quem escolhe, premiando ou punindo determinado programa e/ou canal com o dedo no controle remoto - não gostou, troca.

O problema é que como há 20, 25 anos atrás, as alternativas permanecem escassas. Temos muitos canais, mas seus conteúdos são similares, reproduzindo um determinado pensamento social, sem pluralidade, sem a oportunidade do contraditório. Notícias ou comportamentos veiculados nos telejornais e novelas são adotados como verdade e constroem de maneira imperativa a agenda social e, com isso, têm o poder de perpetuar um dado poder.

Daí a oportunidade de discutir amplamente e sem restrições preliminares a criação de uma Rede Nacional de Televisão Pública. Discussão que certamente incomoda as empresas de telecomunicação, uma vez que podem ser postas em xeque suas 'verdades' e seu poder.

Pode haver contradições e equívocos na proposta apresentada pelo Ministro Hélio Costa, mas elá já tem o mérito de trazer à tona o debate, e democracia é justamente isso. A partir de dada proposta os diversos atores sociais devem interagir, propôr alterações, disputar o seu conteúdo, para avançar no sentido do atendimento a um direito que é da sociedade.

As tevês e também a mídia impressa (mais precisamente a Folha e o Estadão) já saíram a campo para bombardear a proposta e, como já me referi outras vezes neste blog, a partir do argumento do autoritarismo do governo federal. Sempre que algo vai de encontro com seus interesses é autoritarismo ou censura. Mas não é bem assim, porque trata-se antes de tudo, do interesse público.

Um comentário:

  1. Pois é Renta, o Observatório da Imprensa, que geralmente traz temas interessantes sob uma abordagem razoável, hj discutiu exatamente esse tema, da TV Pública. O que me surpreendeu muito é que ali, naquela rede (TVE), geralmente com uma visão mais consciente, menos comprometida com interesses x ou y, a opinião que prevaleceu foi a mesma das grandes corporações privadas da nossa comunicação. Concordo contigo, o debate deveria ser ampliado, pra que essas opiniões não esmagassem o direito à informação. Bj...

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