22.4.07

Prêmio do Cinema Brasileiro

Aconteceu na noite deste domingo o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, uma realização da Acadêmia Brasileira de Cinema. Iniciativa importante e que merece ser louvada.
No Copacabana Palace, a cerimônia premiou os melhores da indústria cinematográfica nacional no período de 1 de janeiro de 2005 a julho de 2006. O grande vencedor da noite foi Cinema, Aspirinas e Urubus.

Uma grande saia justa
A cerimônia do Prêmio foi uma das piores coisas que eu já assisti. Fiquei com uma dó incomensurável do João Miguel e da Dira Paes, os cicerones da noite. Um texto pobre, piadinhas sem graça e sem nenhuma espontaneidade, uma verdadeira saia-justa. Alguns podem arriscar o óbvio, nenhum dos dois tem experiência nesse tipo de apresentação, bla bla bla. Bom é verdade. Sem dúvida que o Selton Mello teria se saído mil vezes melhor, mas não basta culpar os apresentadores, o problema maior está no formato da cerimônia e na organização.

Para não falar no baixo comparecimento. Foi constrangedor ver que cerca de 80% dos premiados não estavam lá para receberem suas estatuetas. Uma situação vexatória e que mostra como ainda temos que comer muito arroz com feijão, inclusive os próprios membros da 'classe cinematográfica' (atores, atrizes, técnicos, produtores, diretores), para valorizar o Cinema como arte e, também, como indústria do entretenimento.

Valorização do Cinema brasileiro
O cinema nacional está numa fase criadora e criativa, temos lançado muitos títulos com grande qualidade técnica, roteiros excepcionais, atuações memoráveis, mas isso tudo não conseguirá fazer com que nossos filmes saiam da faixa dos 50 mil, 100 mil (o que já é um grande feito) telespectadores. Um ou dois por ano, alavancados pela Globo ou destinados ao público infantil conseguem se aproximar ou ultrapassar a barreira do 1 milhão de bilheteria. Dados da Ancine mostram que Cinema, Aspirinas e Urubus teve pouco mais de 70 mil telespectadores.

Muitos fatores contribuem para essa situação entre eles as poucas cópias nas salas de cinema país afora, devido ao alto custo de distribuição. Mas, mesmo nas salas em que esses filmes estão em cartaz o público costuma ser pequeno. Ai entra a publicidade. Quantos meses antes de ser lançado a versão 3 do Homem Aranha o filme já ganhava vida nas publicidades, notícias, cartazes, demos, etc? Claro, não quero comparar o Homem Aranha com Cinema, Aspirinas e Urubus, mas quero afirmar que a publicidade em torno dos nossos filmes é quase nula.

Enquanto a indústria cinematográfica, os produtores e patrocinadores de nossos filmes não se convencerem de que sem uma campanha publicitária consistente e maciça nosso cinema seguirá amargando bilheterias risíveis esse quadro não vai se alterar. Vamos continuar fazendo filmes excelentes, cada vez melhores, mas para um público seleto, reduzido.

Mas, pelo que vimos neste domingo, é preciso contagiar primeiro a 'classe'. A tarefa é dura, mas não vamos desanimar.

4 comentários:

  1. Até agora estou impressionado com a virulência de suas palavras. Ditas, não escritas. Estas são um passeio por abordagens maduras, inteligentes. Irônicas, quando o tema permite, ácidas, quando o assunto reclama.
    Mas não brigue mais comigo (o castigo veio a cavalo, da vizinha São Caetano).

    Nivaldo

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  2. Rê,

    Permita-me utilizar o espaço para um (não tão) breve desabafo. Vamos lá:


    70 mil pessoas para Cinema, Aspirinas e Urubus é até bastante se considerarmos a média das produções brasileiras que não contam com o marketing da Globo por trás. Mas é um índice altamente lamentável se considerarmos o que o filme representa.

    Concordo que a publicidade é importante, mas eu não consigo ver muita esperança para o que costumo chamar de "filme brasileiro de qualidade e, por isso mesmo, para poucos".

    Coisas muito boas têm sido lançadas, mas ninguém fica sabendo. E não é só pela (falta de) publicidade, mas essencialmente porque o brasileiro médio que freqüenta cinema tem péssimo gosto.

    Não quero nem entrar no mérito de Spider Man, Sherk ou Piratas do Caribe, os três blockbusters que devem monopolizar as salas de cinema nos próximos três meses. É covardia.

    Refiro-me àqueles pequenos lançamentos americanos, que, mesmo sem muita propaganda, conseguem faturar bem graças à ignorância/ preconceito do público brasileiro, em especial dos jovens. A cada semana chega um novo filme tosco que leva hordas de adolescentes barulhentos ao cinema apenas porque tem um ator famoso. Ou às vezes nem por isso.

    Vejamos, por exemplo, o caso de Efeito Borboleta 2, provavelmente uma trolha fenomenal que eu tive o bom senso de não assistir por saber de toda a tosqueira por trás dele. O filme foi lançado em DVD nos EUA (prova concreta de que é um lixo), mas ganhou os cinemas por aqui. Pior: levou muita gente aos cinemas. Tudo porque os adolescentes babacas se deixaram levar simplesmente pela associação com ao primeiro, uma produção até que aceitável.

    Em contrapartida, os longas brasileiros só conseguem fazer sucesso de três maneiras:

    1. Se forem uma porcaria consolidada, mas com público cativo (Xuxa, Didi e o escambau). Pode ser a trolha que for, mas 500 mil ingressos estarão garantidos;

    2. Se ganhar força entre o povão. É o caso emblemático de 2 Filhos de Francisco;

    3. Se a Globo estiver por trás.

    Fora isso, é fracasso (de público) certo.

    A Máquina, O ano em que meus pais saíram de férias e Casa de Areia, por exemplo, até que tiveram uma certa força da mídia. O primeiro e o terceiro, em especial, tiveram espaço até na Globo, provavelmente por conta da Mariana Ximenes e das Fernandas (Montenegro e Torres).

    Três filmes excelentes, mas que foram simplesmente ignorados pelo público. Ignorados.

    Até onde sei, não chegaram à casa dos 100 mil.

    100 mil?

    Ah, qualquer Gigolô por acidente leva isso em um fim de semana.

    A culpa, portanto, é muito mais do público do que das próprias distribuidoras e exibidoras.

    Enfim, vou parar por aqui.

    Valeu!

    Beijos

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  3. Faaaaaaaala, Rê! Tudo bem com você?

    Tenho um blog com uns colegas ecanos, oriundos do movimento estudantil.

    Está um pouco parado, mas em breve vai haver algumas atualizações.

    Veja lá:
    http://www.oreverso.blogspot.com

    b-jão!

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  4. De fato Ro, a atual audiência de cinema no Brasil foi moldada pelos padrões norte-americanos, do cinema ação/aventura/terror, das historietas fáceis e sem conteúdo. Ao lado do surgimento de uma nova safra de filmes nacionais, que é preciso ser aplaudida, tem que se moldar uma nova audiência. Alterar hábitos culturais e de consumo não é tarefa pequena, requer paciência, planejamento, ações direcionadas. Há, ainda, um forte preconceito com o cinema nacional, reproduzido pelo senso comum da geração Rambo.
    Não reputaria essa situação apenas ao mau-gosto do público brasileiro, mas primeiramente à ignorância, no sentido aqui de falta de conhecimento, baixa formação cultural e educacional. Assim, melhorar a divulgação pode ajudar a mudar essa cultura.

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