14.2.06

Uma janela para expressar uma indignação!

Convido você para fazer um exercício comigo. Imagine uma aula de interpretação de texto. A professora, ou professor apresenta o seguinte texto para análise:

Biblioteca Mário de Andrade espera reforma
Todos os dias úteis, a partir das 9h, um grupo de cerca de dez sem-teto entra no complexo art déco da praça Dom José Gaspar, ao lado da avenida São Luís, para cuidar da higiene pessoal e passar o tempo lendo dicionários e revistas. Um ou dois chegam a pegar livros. Não se trata de instalações de algum albergue municipal, e sim do complexo da Biblioteca Mário de Andrade, a segunda maior do Brasil (perde em número de obras apenas para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro).A imagem serve de emblema para a situação da Mário de Andrade, acervo de mais de 3 milhões de itens, entre livros, jornais, postais, revistas e moedas, hoje abandonada pela maioria dos pesquisadores, trocada por bibliotecas universitárias mais bem estruturadas.Para começar a reverter a situação e trazer de volta os estudiosos, a prefeitura enviou um projeto de reforma da Mário de Andrade para os órgãos municipal e estadual de proteção do patrimônio histórico, o Conpresp e o Condephaat.Assim que eles aprovarem, afirma o diretor da Mário de Andrade, Luís Francisco Carvalho Filho, R$ 12 milhões serão investidos no conserto das infiltrações de água que umedecem perigosamente o prédio assim que começa a chover, na derrubada das grades verdes que cercam toda a edificação (impossível não pensar num presídio), na construção de rampas de acesso para deficientes físicos, na adaptação de uma sala para cibercafé e internet livre. O dinheiro também será usado para construir um imenso móvel na hoje chamada sala de leitura e que abrigará todo o acervo circulante, móveis e mesas para consulentes.

O texto em tela é a parte inicial de uma notícia veiculada pelo Jornal Folha de S.Paulo de 14/02/2006.
Não o reproduzo na integra, porque após esse parágrafo a notícia traz declarações de técnicos sobre as condições das instalações e dados das relíquias que fazem parte do Acervo da Biblioteca, sendo o fragmento inicial suficiente para fazermos a interpretação do texto.
O raciocínio desenvolvido pelo jornal, ou pelos repórteres que assinam a matéria (Laura Capriglione e Luísa Brito) mostra o pensamento elitista, preconceituoso e conservador que este veículo e parte considerável da sociedade infelizmente ainda possui.
Veja só o absurdo, a inversão de valores que a notícia da Folha propõe: Quer dizer que a imagem que revela o abandono da maior Biblioteca da América Latina é a de alguns sem-teto freqüentarem suas instalações para passar o tempo lendo dicionários e revistas e alguns até chegarem (vejam bem que abuso) a retira livros do acervo circulante? Essa é a demonstração de que o poder público largou às traças livros impressos antes do descobrimento do Brasil e desenhos de originais de pintores como Rugendas?
Claro, na visão da elite nacional uma Biblioteca é o espaço reservado por excelência para os Iluminados (no sentido histórico do termo) e, portanto, o abandono de um acervo deve ser medido pelo extrato social e cultural dos que o visitam.
Recuperar a Biblioteca Municipal Mário de Andrade é uma tarefa que tem o objetivo não de preservar as raridades, mas “trazer de volta os estudiosos”, como os autores fazem questão de destacar.
Então, presumo que após a reforma e recuperação do patrimônio público em questão, que vai permitir o retorno dos pesquisadores, os sem-teto, que “passam o tempo” lendo dicionários e revistas – que talvez na visão dos repórteres inclusive não sejam compreensíveis para eles – não terão mais espaço na Mário de Andrade.
É lamentável saber que um veículo como a Folha de S.Paulo, que por sua história e poder construiu uma influência inegável na formação de opinião de parcela importante da sociedade paulista, difunda esse tipo de visão que exclui, condena, marginaliza.
A Folha estaria fazendo um jornalismo muito melhor se tivesse optado, por exemplo, por fazer uma reportagem sobre essas pessoas que, mesmo estando em condições sociais de exclusão, sem moradia, emprego, educação, ainda procuram superar a ignorância visitando uma Biblioteca para “passar o tempo”, e têm a ousadia de ler um livro. Esta sim seria uma pauta interessante, mas talvez socialmente comprometida demais para um veículo como a Folha de São Paulo.

5 comentários:

  1. Anônimo6:55 PM

    É por isso que eu gosto de blogs. Não tinha lido essa notícia por esse prisma. Na verdade, eu passei correndo por esse primeiro parágrafo e nem percebi isso. Você tem toda a razão. Preconceito puro! Seja bem-vinda! Beijos

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  2. É por isso que eu gosto de blogs. Não tinha lido essa notícia por esse prisma. Na verdade, eu passei correndo por esse primeiro parágrafo e nem percebi isso. Você tem toda a razão. Preconceito puro! Seja bem-vinda! Beijos

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  3. Sempre soubemos quais eram os interesses politicos do grupo Folha de São Paulo, mas eles nunca deixaram tão claro como nestes ultimos tempos o preconceito e a discriminação social.....
    Perfieta analise....

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  4. Sempre soubemos quais eram os interesses politicos do grupo Folha de São Paulo, mas eles nunca deixaram tão claro como nestes ultimos tempos o preconceito e a discriminação social.....
    Perfeita analise....

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