2.4.07

A minha lista dos chatos

A sociedade contemporânea encontrou uma boa maneira de sintetizar hábitos, padrões, gostos e desgostos. As listas passaram a ser uma obsessão, servem para tudo e estão em todos os lugares e situações.
Programas de TV são construídos em torno de listas, que pressupõem também uma certa hierarquização de coisas. Top 20, as 10 +, 10 passos para emagrecer, 10 dicas para uma maquiagem de estontear, os 60 melhores clipes para se assistir gritando e por ai afora.
Um filme sensacional do diretor Stephan Frears aborda o tema de maneira espetacular. Em Alta Fidelidade, o personagem de John Cusack lança mão das listas para compreender melhor o seu comportamento e personalidade e, assim, encontrar os motivos que fizeram com que a namorada lhe desse um fora.
Eu não me encontro entre as pessoas aficcionadas por listas. Raramente as faço. Até porque as julgo tão mutantes, elas estão altamente sujeitas ao humor, condição econômica, faixa etária, estado civil etc, que precisariam ficar sendo feitas e refeitas constantemente. Talvez esteja ai a graça das listas; eu, confesso, não tenho muito saco.
Mas achei muito interessante a lista divulgada nesta segunda-feira pela Folha de S.Paulo. Instigada por uma pesquisa realizada com mais de 4.000 britânicos, o jornal foi ouvir de personalidades e leitores quais os livros "menos lidos" de suas coleções. Ou seja, o ser humano teve o impulso inicial de comprar uma obra literária, de iniciar a leitura, mas, por variados motivos, nunca conseguiu ir até o fim.
Essa é uma lista excelente, que me fez pensar e tomar a coragem de admitir publicamente a milha lista dos 'inconclusos'.
Geralmente são clássicos, o que fez eu me sentir por um bom tempo (até ver a reportagem de hoje) uma pessoa ignorante.
Em conversas com amigos, quando o tema é literatura, sempre aparece a frase: Como assim, você ainda não leu fulano, ou ciclano, referindo-se a certos clássicos consagrados como monstros da literatura. Vamos então, sem mais demoras, à minha lista, sem uma ordem hierarquica:
- Germinal, Émile Zola (nunca consegui passar da página 50 - uma chatisse)
- Ana Karenina, Tolstoi (esse é um orgulho, mas um arrependimento. Cheguei pertíssimo do final das mais de 400 páginas, mas acabei não lendo o fim. Na época, estudava em São Carlos e viajava todos os Domingos para lá. Fui certa vez reconhecida na rua por alguém que me perguntou - não é você que leu Ana Karenina? Podem acreditar)
- Dom Quixote, Miguel de Cervantes (também cheguei no máximo à página 100. Difícil, arrastado, demorado, um martírio. Só sendo um Quixote mesmo para embarcar nessa difícil aventura)
- O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago (também não consegui passar da página 100. Sei que pode parecer heresia. Adoro Saramago, já li quase todos os seus livros, e sempre os devoro. Mas com este não deu. Não gostei)
- A Metamorfose, Franz Kafka (sinceramente não dá)

Claro que há muitos outros livros inconclusos deixados para trás. Mas esses são os clássicos, que me incomodava admitir serem chatos. Agora o faço, sem peso na consciência e certa de não estar sozinha nesta lista.

5 comentários:

  1. Fala Rê, obrigado pela visita!

    Ah, só quero deixar um pitaco na sua lista: O Castelo de Âmbar.

    Mino Carta é um gênio, mas às vezes é chato como um quê!

    Bejas!

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  2. Altair Freitas1:31 PM

    Salve, Rê!
    Eu quase concordo integralmente com a tua lista! Minha única diferença está no Germinal. Quanto aos demais, li-os todos..Mas, sinceramente, acabei-os por pura obrigação.
    No caso do Quixote, eu tenho uma edição que tem mais nota de roda pé do que o livro propriamente dito. Então, dispersão total..
    Abraço!

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  3. Cláudio, O Castelo de Âmbar também tá na minha lista dos inconclusos, mas apesar do Mino ser um dos meus ídolos no jornalismo, ele não tem ainda um lugar na lista dos clássicos. Mas o livro é mesmo chato pacas!

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  4. estou lutando com a montanha mágica e suas 800 páginas há anos. amo a transformação que o personagem hans castorp sofre, mas noooooossa, que dificuldade. vitória: 10 páginas do fim!

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  5. vandre3:41 PM

    Como descobri que jamais vou ser um intelectual: Descobri que todos os livros de James Joyce são chatos;
    Como descobri que jamais vou ser de comunicação: Porque odeio tudo de Lucrecia Ferrara e Lucia Santaella;
    Mais alguns chatos:
    Ponte dos três Arcos, Ismael Kadaré
    Qualquer livro do Dalton Trevisan
    e todos os livros e artigos do Bonassi.

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