25.4.09

Jornalismo Irresponsável - Folha assume erro técnico para justificar decisão editorial de desgastar imagem de Dilma Rousseff

Depois de ter estampado em sua capa, no dia 05 de abril, uma ficha criminal da ministra Dilma Rousseff – que trazia uma lista de ações atribuídas a ela durante a ditadura militar –, a edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo traz a matéria “Autenticidade de ficha de Dilma não é provada”.

Nela, começa dizendo que o jornal cometeu dois erros. “O primeiro foi afirmar na Primeira Página que a origem da ficha era o arquivo [do] Dops. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”. (os grifos são meus)

O texto da Folha é repleto de incoerências jornalísticas flagrantes. Como pode um veículo de comunicação publicar uma ficha que circula há pelo menos um ano pela internet, que está disponível numa página de adoradores do golpe militar e que foi recebida por ‘uma fonte’ através de um e-mail, sem ir a fundo na apuração para se certificar da autenticidade do documento? Estamos falando aqui de um dos maiores jornais do país, que possuí recursos financeiros, profissionais e contatos em várias esferas públicas e privadas para realizar a apuração antes de publicar qualquer coisa que seja.

Então, se a Folha recebe um documento por e-mail cuja autenticidade não pode ser assegurada bem como não pode ser descartada ela pública sem medo de ser feliz? E quem repara as consequências que tal atitude pode trazer para a vida das pessoas e ou instituições alvos dessa prática jornalística irresponsável? Não venha me dizer que uma vez registrado num “erramos”, o veículo se exime do estrago feito na reputação de pessoas e instituições.

Mesmo porque, geralmente, a desproporção entre a notícia e o erramos é gigantesca. No caso em questão, a mea-culpa do jornal foi publicada na página 12 do caderno Brasil. Na capa, nem uma menção. Ora, o próprio jornal diz que em 05 de abril a ficha foi reproduzida na Primeira Página. Então, porque não publicar com o mesmo destaque na Primeira Página o erro cometido pela Folha?

A resposta não parece óbvia? É porque a Folha, na verdade, construiu um texto não para admitir que cometeu um erro, mas para se eximir das consequências de uma decisão editorial, relacionada com a disputa política em curso no Brasil e que tem como uma das protagonistas a ministra Dilma Rousseff, fortemente cotada para ser a candidata do Palácio do Planalto à presidência em 2010.

A preocupação original do jornal não foi em nenhum momento fazer uma retratação de uma falha jornalística grave – que pode acontecer em qualquer veículo, mas que uma vez identificada exige desdobramentos. A intenção do jornal da família Frias foi evitar, com a pseudo-admição do erro, um processo judicial e tentar manter um pouco da fachada de empresa imparcial e comprometida com o leitor.

Ao longo da matéria, a Folha vai se justificando dizendo que o foco da reportagem (de 05 de abril) não era a ficha, mas o plano de sequestro do ministro Delfim Netto, em 1969. Sequestro esse, diga-se de passagem, que nunca existiu. Mas, então, porque reproduzir a ficha no espaço mais nobre do jornal, a Primeira Página?

Continuando suas justificativas, matéria deste sábado diz que durante a apuração da reportagem o jornal reuniu documentos de vários acervos e que “ao classificar a origem de cada documento, o jornal cometeu um erro técnico: incluir a reprodução digital da ficha em papel amarelo em uma pasta de nome “Arquivo de SP”, quando era originária de e-mail enviado à repórter por uma fonte”. (grifo meu)

O jornal diz que, após a publicação da reportagem recebeu telefonema da ministra Dilma solicitanto detalhes da ficha. Só ai o que deveria ter sido feito antes foi realizado “o jornal imediatamente destacou repórteres para esclarecer o caso”.

E foi então que ouviu do coordenador do arquivo Público de São Paulo, que guarda os documentos do Dops, Carlos Almeida Prado Bacellar que “essa ficha não existe no acervo”. “Nem essa ficha nem nenhuma outra ficha de outra pessoa com esse modelo. Esse modelo de ficha a gente não conhece”, afirmou.

Será que o fato de não haver nenhuma outra ficha do Dops com esse modelo já não é suficiente para afirmar que o documento reproduzido pela Folha não é autêntico? No final eles terminam afirmando que não, já que apenas parte dos acervos está nos arquivos públicos. “Muitos documentos foram desviados por funcionários e hoje constituem arquivos privados”.

Então qualquer documento é legítimo até que se prove ao contrário? E cabe a quem o juízo de sua autenticidade, ao leitor?

Afinal, é como defendem os barões da mídia, para que uma Lei de Imprensa que estabeleça regramentos para a atividade jornalística, o tempo da censura já passou, eles querem liberdade de imprensa. Liberdade para publicar o que lhes convém, não importa o que seja.

O pior é que ainda tem gente que acredita que informação, notícia, análise e opinião para terem credibilidade precisam estar chanceladas por algum veículo da grande imprensa. Ainda bem que isto está começando a mudar.

2 comentários:

  1. Renata,
    isso acontece porque a "reporcagem" da Folha sobre Dilma faz parte do FEBEAPES (Festival de Besteiras Assumidas Para Eleger Serra).
    Parabéns pelo blog.

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  2. Sabe, quando me deparo com esse tipo de situação penso no quanto essa elite joga sujo pra enganar o povo e garantir seus interesses. Mas o povo não é bobo não, e tem mostrado muito bem sua capacidade de reflexão e inteligência.

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