27.11.09

TV vende tudo

Numa sociedade de consumo, não é de se espantar que a mídia de massa tenha como uma de suas atividades centrais a venda. Vende-se de tudo, ideias, valores, comportamentos… Vende-se também, é claro, mercadorias. Das pequenas às grandes, das necessárias às completamente desnecessárias, ou aquelas que não têm utilidade nenhuma, mas tornaram-se indispensáveis para manter o status.

A televisão é um veículo privilegiado para vendas. Som, imagem e sedução se unem para hipnotizar a audiência. Aliás, há uma personagem emblemática que mostra o domínio do merchandising sobre as pessoas. É a sra. Van Cleeve do filme Bancando a ama-seca de Jerry Lewis (1958).

A propaganda de produtos ocorre nos intervalos comerciais, nos programas de auditório, na transmissão de eventos, nas novelas. Ou seja, misturada à programação jornalística, de entretenimento, dramaturgia etc.

Mais, mais, mais
De um tempo para cá, este espaço parece ter ficado pequeno. Então, as emissoras de televisão passaram a sublocar horários cada vez maiores para programas exclusivamente de vendas. Shoptour, Polishop, Giga Shopping, Mix TV etc.

Bem, isso parece também não ter sido suficiente, então, há canais da TV aberta que são 100% voltadas para venda. São canais que vendem jóias, tapetes persas, eletrodomésticos, imóveis, móveis, roupas, computadores, uma lista interminável de produtos.

Vendendo fé e milagres
Ah! e o que dizer das diversas igrejas que alugam espaço na televisão para pregar a palavra de Deus… Este talvez seja o caso mais grave de sublocação. A única diferença, para os anteriores, é que o produto vendido é imaterial, ou seja, vende-se fé, um pedacinho do céu, milagres…

Fora da lei
O que muita gente não sabe é que tudo isso acontece dentro da mais descarada irregularidade. Segundo a Constituição Federal, em seu artigo 221, “a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: 1 – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”. Além disso, segundo a lei de 1962, a publicidade comercial pode ocupar até no máximo 25% da grade de programação.

Afora isso, o próprio ato de alugar horários para terceiros em emissoras de televisão também é irregular. As outorgas de rádio e TV são uma concessão pública, que é dada pelo Estado, ou seja, cabe ao poder público definir quem será o ente privado a explorar o serviço de radiodifusão. Ao locarem seus horários, as emissoras estão cumprindo um papel que não lhes cabe.

Direito ou privilégio?
Até recentemente, apenas os movimentos que lutam pela democratização das comunicações abordavam esse assunto. A realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação e a ampliação do debate sobre o tema, já está mostrando frutos. A questão da sublocação de horários tem ganhado espaço na mídia – recentemente uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, denunciou que “Rede TV!, Record, Gazeta e Band ocupam entre 23% e 30% da grade semanal com programas religiosos. E a Rede 21, do grupo Bandeirantes, tem só 30 minutos diários de programação própria, o restante tomado pela Igreja Mundial do Poder de Deus”.

Enquanto o poder público não acaba com essa algazarra, os concessionários de televisão vão engordando seus cofres com o aluguel da programação. Já os movimentos sociais, os produtores independentes e a produção local permanecem excluídos do direito à comunicação. Direito de todos que hoje é privilégio apenas para alguns poucos.

Um comentário:

  1. Renata, penso que todo esse espaço comercializado para indústrias de tele-vendas, religiões e outros similares, são também um grande desrespeito ao telespectador, especialmente os que não tem condições, por exemplo, de pagar uma televisão por assinatura. Isso, porque, as opções de qualidade dentro da TV aberta ficam muito restritas. Ou alguém crê de fato, que emissoras como a Rede 21, por exemplo, citada em seu artigo, consegue manter uma audiência no mínimo, digamos, significativa? E pensar que há alguns anos atrás, esta mesma emissora se orgulhava de ter em sua grade uma programação diferenciada, similar à programação dos canais fechados. Por outro lado, acho que também, o próprio público acaba contribuindo para esse tipo de abuso, quando deixa claro que prefere certos tipos específicos de programação, especialmente as apresentadas nas chamadas emissoras "campeãs de audiência". Acredito que isso faça com que emissoras menores, acabem por não se importar tanto com a qualidade de sua programação, uma vez que o público em geral, não demonstra tanto interesse. Neste caso, o atrativo de ganho material acaba se tornando muito mais sedutor que agradar a uma minoria. Minoria esta, entenda-se o público que prioriza uma programação saudável e de boa qualidade ao invés das já super esgotadas fórmulas de telenovelas, programas de auditório, reallity shows e outras do gênero.

    ResponderExcluir