1.12.09

Lição de prática jornalística

Há certas regras do fazer jornalístico que não precisam de quatro anos de um curso superior para se aprender. Entre elas destaco: antes de publicar uma informação é preciso checá-la, averiguar sua veracidade. Na impossibilidade de fazê-lo – ou por falta de dados ou por decisão editorial –, o tratamento dado à informação precisa ser relativizado e o veículo deve abrigar, nestes casos, espaços para o contraditório, ou seja, dar voz à outros pontos de vista. Diga-se de passagem, essa é uma regra que não vale só para o jornalismo, vale para a vida. Não se pode sair por ai acusando alguém sem que se tenha como provar a acusação. Isso, inclusive, é crime.

Infelizmente esta que é uma prática mestra do bom jornalismo – e da convivência em sociedade – está sendo cada vez mais negligenciada nas redações. Nem sempre, é claro, isso é responsabilidade do repórter, mas sim, uma opção editorial do veículo.

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O descaso da dupla Folha x Benjamin
No caso da publicação do artigo “Os filhos do Brasil” de César Benjamin na Folha do dia 27/11, o descaso com a informação está escamoteado na forma de opinião, como se ao fazer isso, o jornal pudesse se abster da responsabilidade do conteúdo expresso naquele espaço. O artigo, que claramente foi encomendado pelo jornal ao ex-militante e fundador do PT, começa com as memórias do cárcere de Benjamin, onde ele sensibiliza o leitor para a sua história de combate e resistência e conquista a sua credibilidade para o que está por vi – desrespeitar um presidente da República com acusações inescrupulosas.

Bom até ai, essa história em quatro dias já deu panos para as mangas.

O outro lado
A Folha publicou o artigo sem procurar ouvir os envolvidos e averiguar os fatos narrados por Benjamin. Depois do bombardeio, o jornal foi procurar o militante do MEP – Movimento pela Emancipação do Proletariado. Hoje, terça-feira (01/12), publica texto em que o eletricista João Batista dos Santos qualifica o artigo de “um horror”.

A certa altura, como numa lição de prática jornalística – que o jornal parece não concordar – a reportagem diz: “Para Santos, o jornal deveria tê-lo procurado antes de publicar o artigo”. Para Santos? Ou seja, essa é a opinião do envolvido e não do Jornal, que insiste em se colocar acima do bem e do mal.

Até quando este jornal, e outros que seguem o mesmo receituário, continuarão impunemente destruindo reputações, divulgando supostas irregularidades sem a devida investigação – investigação aliás que não cabe ao jornalismo fazer, mas aos órgãos policiais competentes. Até quando vão gerar crises econômicas, criar pânico na sociedade com informações distorcidas sobre doenças, violência e tantas outras práticas irresponsáveis sem arcar com as consequências dessa prática?

Talvez até esses veículos perceberem que estão indo à míngua devido à esta prática autoritária de fazer jornalismo, até ficarem sozinhos falando para os seus – aqueles poucos que comungam com esse tipo de artifício para pautar o debate público. Artifício este que está com seus dias contatos, seja pelo crescimento de outras formas de comunicação, seja porque a sociedade vai percebendo aos poucos o jogo sórdido desses jornais. E parece que isso não está longe de acontecer. Basta ver a queda de assinantes e de vendas em bancas desses jornalões. Como diz o bordão – o povo não é bobo!

Um comentário:

  1. Olá, Renata! Resolvi deixar esse comentário apenas para dizer que estou sentido falta de seus textos. Saudade! Espero que esteja tudo bem... Acredito que até pela força de sua profissão, deve estar uma correria e você não tem tido tempo para postagens nos últimos dias. De qualquer modo, assim que possível, espero ter a oportunidade de ler os mais recentes de seus artigos. Grande abraço!

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