1.2.10

O pânico do controle e o medo da perda do poder

Quem tem poder não quer perdê-lo por nada. Não é à toa que a história do mundo é a história da luta pelo poder. Sempre foi assim e continuará sendo, ao menos enquanto nossa sociedade estiver dividida em classes sociais distintas e antagônicas. Marx dedicou sua vida a estudar essas relações.

O desespero diante da participação
Por isso, não me causa espanto a ira destilada pelos barões da mídia diante da tentativa da sociedade em ter maior participação nos processos de comunicação no Brasil. Participação essa que nunca foi exercitada em razão dos contornos econômicos, políticos e sociais que determinaram historicamente a formação dos meios de comunicação no país.

Mas, com o exercício da democracia, com o aumento da participação popular nos processos de elaboração das políticas (outro fator que incomoda e causa urticária nas elites), essa situação começou a se alterar e a sociedade começou a reivindicar maior presença em todas as áreas, inclusive na comunicação.

Estava tão bom como era antes, sem questionamentos, sem ninguém querendo opinar a respeito do que é produzido por estes veículos. Audiência, leitores passivos e resignados em receber aquilo que as empresas decidiam nos entregar como produto de comunicação.

A ira dos barões da mídia
Para manter o status quo, a mídia arregaça as mangas e parte para o ataque. Uma peça exemplar dessa ira é o editorial do Estado, desta terça: Nova investida contra a democracia. Ele é ácido e descamba para o ataque puro e simples, usando argumentos que são, no mínimo, risíveis.

Afirma o editorial que não há monopólio dos meios de comunicação no Brasil. Claro que não, o âncora do Jornal Nacional já explicou muito bem isso ao dizer, que há 6 ou 7 empresas de televisão no país. Para que mais? Vamos ser mais precisos: 6 ou 7 empresas que dominam toda a cadeia de comunicação.

Taxa os movimentos sociais, as organizações não governamentais e tantas outras instituições da sociedade civil, que têm participado ativamente do processo de conferências, de bandos antidemocráticos patrocinados e coordenados pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, comparando esses movimentos com skinheads ou outros grupos arruaceiros.

Acusa esses movimentos de quererem controlar os meios de comunicação, a produção artística e a investigação científica e tecnológica. Alguém por acaso acha que não há um controle já sendo exercido sobre os meios de comunicação e sobre a cultura? Lógico que há, eles são fortemente controlados pela iniciativa privada e servem aos interesses políticos, econômicos, ideológicos e sociais dessa elite dominante.

Ou você, caro leitor, já foi chamado em algum momento para opinar sobre o conteúdo da programação da Rede Globo? Claro que não, a única forma de “opinar” é trocar o canal ou desligar a TV. Aliás, é o que recomendam os próprios executivos das emissoras. E rebatem: se assistem é porque gostam e estão aprovando.

Essas redes, na sua esmagadora maioria, nem sequer possuem o ombusdman para fazer o contato com a população. Claro, não querem ouvir, não querem compartilhar o seu poder, ou alguém duvida que ter nas mãos uma emissora de TV ou de rádio, ou um jornal, ou uma revista é um instrumento de poder?

Tolos e autoritários
O editorial – que nada mais faz do que dar vazão à opinião da elite que está sendo questionada – classifica as propostas discutidas pela sociedade em conferências e outros fóruns de debate de tolices. “Mas conferências desse tipo não têm o poder de transformar tolices em ideias inteligentes nem propostas autoritárias em projetos democráticos”.

Tolos e autoritários são os barões da mídia que estão enclausurados num modelo de comunicação que está ultrapassado, uma vez que as novas tecnologias permitem a troca entre emissor e receptor, acabando com a via de mão única que caracterizou os meios de comunicação em todo o século XX.

Autoritários são os proprietários dos meios de comunicação, que se encastelaram em concessões públicas ignorando que é direito, sim, do cidadão, ter participação nos destinos dos bens públicos e comuns da nossa sociedade.

A luta pelo poder e o recado à oposição conservadora
O que está em jogo, ao fim e ao cabo, não é a liberdade de expressão, de imprensa ou a democracia, que de repente viraram bandeira dessa elite. O que está em jogo é o poder, e nessa briga vale tudo para mantê-lo.

Como a mídia hegemônica cumpre, no capitalismo, o papel de partido político da burguesia, o editorial finaliza com uma orientação política para a oposição e um puxão de orelha nos partidos de direita: “A oposição poderia ajudar a conter esse projeto insano, se deixasse o comodismo e mostrasse mais disposição para defender a democracia do que mostrou diante do ameaçador decreto dos direitos humanos”.

Tal chamamento também pode ser visto como um pedido de SOS. “Não deixem que os partidos de esquerda ganhem mais uma vez a eleição e continuem essa escalada de ampliação da democracia e de questionamento dos nossos métodos de fazer comunicação”. Um pedido de socorro para que o poder dos barões da mídia seja mantido.

Um comentário:

  1. Muito bom o seu artigo Renata!

    É realmente flagrante o fato que os barões controladores dos meios de comunicação não querem e nunca quiseram a emancipação popular. Boicotam, descaracterizam e apedrejam a todo instante toda e qualquer forma de reação que venha das classes oprimidas...
    Felizmente nós, seres humanos, ainda podemos lutar para defender o nosso senso crítico! E um espaço fenomenal para isso é a Internet que, com todas as suas potencialidades vem se mostrando fantástico instrumento de difusão de conhecimento LIVRE!

    P.S. O conteúdo do seu blog tem muita afinidades com o que venho publicando no Incomode-se. Realmente compartilhamos de muitas opiniões em comum!

    Abraço!

    ResponderExcluir